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Por que somos gays?
2012-04-17
genegay

 O caso de Chris Birch parece ter levantado algumas questões na comunidade gay. Alguns dos comentários à notícia [no Pink News] levantaram preconceitos e medos acerca das suas implicações. Se alguém se pode «tornar gay» pelos traumas cerebrais causados por um AVC, o que é que isso significa para quem nós somos?

 

As causas, consequências e curas da homossexualidade têm sido debatidas intermitentemente desde que o assunto teve o seu primeiro nome “científico”, em 1869. Claro que relações entre pessoas do mesmo sexo existiam antes disso, mas com a publicação de Psychopathia Sexualis, as causas da homossexualidade tornaram-se sujeito de investigação científica, merecederas de explicação. (É de notas que a palavra heterossexual só foi criada 20 anos depois.)

Durante muito tempo, a explicação que teve mais credibilidade foi a da teoria psicológica freudiana acerca da influência inconsciente de acontecimentos na primeira infância em comportamentos mais tarde na vida. Como a homossexualidade era considerada uma doença mental, considerava-se que as pessoas atraídas por pessoas do mesmo sexo podiam ser curadas. Esta atitude levou à morte de Alan Turing, sujeito a terapia de aversão (choques elétricos associados a fotos de homens nus para associar dor ao desejo sexual) e terapias hormonais.

Apesar da psicanálise ser geralmente considerada não científica, as teorias freudianas ainda têm alguma credibilidade em certos grupos de pessoas, principalmente por grupos evangélicos que insistem na capacidade de curar a homossexualidade. No entanto, o consenso da comunidade de psicológos hoje em dia é que a homossexualidade não é uma doença, é um exemplo de uma variação normal do comportamento humano. A homossexualidade foi retirada da lista americana de doenças mentais, nos anos 70, apesar de só ter sido retirada da lista internacional nos anos 90.

Com o afastamento das explicações psicológicas da homossexualidade, nos anos 90, as notícias começaram a cobrir os excitantes desenvolvimentos na genética. Como resultado, foram escritos vários artigos em meados dos anos 90 que relacionavam a genética com a sexualidade. Um artigo publicado em 1993 associou um gene específico do cromossoma X (nos homens, este gene vem da mãe) com a homossexualidade masculina. 

Para a comunidade gay, isto reforçava o que eles já sentiam: que nasciam gays. Houve encontros públicos em que investigadores disseram a famílias que os seus filhos eram normais, que a homossexualidade era um traço genético como ser canhoto. No entanto, a investigação não conseguia explicar todos os casos de homossexualidade masculina e as ligações com a sexualidade feminina eram ainda menos óbvios. Em resumo, a genética explica alguns casos, mas é incompleta.

O enfoque mudou então para explicações relacionadas com o desenvolvimento fetal: os fatores que mudam a expressão dos genes à medida que o bebé desenvolve. Um exemplo disto é que crianças com pouco peso ao nascer tendem a ser obesas e ter problemas cardíacos mais tarde. Pensa-se que nestas crianças o gene da “fome” foi desenvolvido no útero, por isso tendem a reter mais gordura mais tarde.

Há alguma evidência da associação entre desenvolvimento e homossexualidade. Por exemplo, os níveis de testosterona no útero têm sido associados com a sexualidade masculina e feminina. Também existe evidência que quantos mais irmãos mais velhos um homem tiver, maior a probabilidade de ser gay. No entanto, estas evidências são insuficientes para explicar todos os casos; é uma parte mas não é o todo. 

Recentemente, é a neurociência que tem dominado a ciência nas notícias. Em 1848, PhineasGage teve um acidente quando trabalhava nos caminhos de ferro quando uma barra de ferro lhe bateu na cabeça resultado de uma explosão. Em consequência, ele experimentou uma mudança completa de personalidade e desde então tem havido um fascínio acerca de como um trauma cerebral pode alterar o comportamento. Scanners de alta resolução permitem um maior conhecimento da estrutura do cérebro e alguma da investigação mostra uma ligação entre algumas estruturas neurológicas específicas e a sexualidade. 

Em vez de homo ou heterossexuais, estas estruturas sugerem que mulheres heterossexuais e homens gays partilham estruturas comuns, e que lésbicas e homens heterossexuais também têm em comum algumas estruturas. A ideia aqui é que as pessoas têm uma estrutura para atração-masculina ou atração-feminina. Dessa perspetiva, é fácil perceber que traumas cerebrais, que fazem com que o cérebro tenha de se reestruturar, podem resultar não só em mudanças de personalidade mas também noutras mudanças fundamentais de comportamento.

No entanto, mais uma vez, esta não é uma explicação completa. Logo à partida, não explica a bissexualidade, que também não é explicada por razões psicológicas, genéticas ou fetais. Também há pessoas que se movem entre sexualidades e se envolvem em relações com ambos os sexos sem serem atraídas pelos dois sexos ao mesmo tempo. Como é que se explicam estas expressões flexíveis e fluídas da sexualidade? 

O facto é que a sexualidade não é simples. As explicações psicológicas já não são geralmente aceites, mas ainda são úteis para algumas pessoas. A genética não é adequada para explicar a sexualidade em todos os indivíduos, mas explica em alguns. O desenvolvimento fetal também tem influência em alguns mas não em todos. A estrutura neurológica também fornece explicações para algumas pessoas, mas não explica tudo. 

Perante esta complexidade, se se quiser eliminar gays e lésbicas da sociedade, ter-se-ia de gerar um tal modelo multifatorial de sexualidade que seria – e, não verdade, é – impossível por todos os motivos práticos. As organizações que reclamam que as pessoas podem ser curadas da sua homossexualidade – como se a homossexualidade fosse uma doença – alegam que as suas terapias psicológicas (muitas vezes ajudadas pelo poder da oração, claro) são suficientes para afetarfatores genéticos, de desenvolvimento e neurológicos, uma asserção que, muito simplesmente, não tem consistência na realidade. 

Mesmo que a modificação da estrutura do cérebro fosse eficaz para “tratar” a homossexualidade (e, nesse caso, também a heterossexualidade), como sociedade tivemos de aprender algumas lições acerca da permissão de modificar indiscriminadamente o cérebro, decorrentes dos escândalos com as lobotomias, no século XX. Não acredito que a sociedade atual fosse permitir esses procedimentos.

Não sei o que tornou Chris Birch gay: não tenho motivos para não acreditar na sua história e penso que o trauma cerebral é um motivo tão plausível como qualquer outro, No entanto,projetarmos nele e na sua história os nossos medos só dá poder às pessoas que querem negar a nossa existência. Devemos estar orgulhosos que, seja porque motivo for, o Chris conseguiu assumir a sua homossexualidade e estabelecer a sua nova identidade. A sociedade mudou muito nos últimos vinte anos e, apesar de continuarmos fascinados em encontrar a razão para sermos como somos, ser gay já não é o fardo que costumava ser.

[Tradução livre]

In Pink News, 17 de abril 2012, por David Waldock (graduado em ciências da vida, e pós-graduado em como as pessoas se realcionam com a ciência e a tecnologia)

 

 
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