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reportagem sobre a AMPLOS no jornal Público
2010-03-09
Associação de Mães e Pais pela Liberdade de Orientação Sexual

Aos 15 anos, o filho abordou-a dizendo-lhe que queria conversar. Foi a seguir ao jantar, enquanto ela descansava no sofá da sala. O pai também ali estava. "Sabes, mãe, eu não me sinto atraído por raparigas", disse-lhe o filho.Começou, assim, uma conversa que o pai seguiu em silêncio até sair discretamente da sala, deixando o filho, Romeu, e a mulher a sós.

Antes disso, Clarisse Monteiro, de 46 anos, professora de Educação Especial, não percebera "rigorosamente nada", diz ao P2. "O impacto dessa revelação foi de surpresa e de algum choque." Mas junto do filho Clarisse reagiu de "uma forma naturalíssima", conta. Falaram. E tanto ela como o marido perceberam que a situação era definitiva. "Senti-me profundamente assustada, pelo muito que ele poderia vir a sofrer com tudo isto", diz. Romeu tem agora 20 anos.

Também Margarida Faria, de 51 anos, socióloga, não estava à espera da revelação da orientação homossexual da sua filha mais nova, Catarina, agora com 22 anos. Primeiro, ficou surpreendida. Depois, pensou que "talvez passasse". Mais tarde, percebeu que era assim que ela se sentia mais feliz e que tinha direito a sê-lo.

Margarida e Paulo - ele é professor universitário -, sempre presentes ao longo do crescimento das duas filhas, tinham agora de lidar com esse facto anunciado. "Sempre tivemos amigos homossexuais mas as nossas expectativas relativamente às nossas filhas não passavam por aí. Foi preciso adaptarmo-nos a uma realidade que não tínhamos previsto", conta Margarida. E conforme iam conhecendo os amigos da filha, iam sabendo de histórias terríveis: rapazes e raparigas expulsos de casa, escondidos, rejeitados pelas próprias famílias.

Foi aí que tiveram a ideia de criar a Associação de Mães e Pais pela Liberdade de Orientação Sexual (AMPLOS), a primeira organização do género em Portugal.

Um casal de empresários de 46 e 44 anos, que prefere o anonimato, inclui-se entre os 35 pais que participam nas reuniões da associação. A mãe já desconfiava da orientação homossexual do filho, agora com 25 anos, pela sua "neutralidade em relação ao sexo oposto". Mas foi ele próprio que lhe deu a notícia. Sentiram-se "assustados" pelo impacto social que a situação poderia ter, mas "tranquilos" enquanto pais -dizem-se com "uma mente aberta" e acham que "o facto de amar alguém do mesmo sexo não contribui negativamente para a sociedade".

A experiência de Margarida diz-lhe que, "num primeiro momento, ninguém encara de forma totalmente natural e despreocupada a orientação homossexual dos filhos". A realidade é que "todos os pais se sentem sós numa ocasião dessas", afirma.

"Nunca ninguém está preparado para ouvir essa notícia de um filho", diz Clarisse. No final da conversa em que o filho a informou que não se sentia atraído por raparigas, ela agradeceu-lhe "ter confiado" nos pais: "Era uma grande prova da nossa cumplicidade. Mas, sobretudo, do grande amor que sempre nos uniu." Depois, a sós, conta, "chorei muito, mas admirei-o profundamente. Apesar da sua pouca idade, teve coragem e sabedoria bastantes para depositar um segredo daqueles nas mãos das pessoas que mais amava".

Dúvidas e medos

Para a grande maioria dos pais, a principal preocupação é a discriminação que os filhos possam vir a sofrer e como a vão enfrentar, afirma Margarida. "Passámos toda uma vida a ouvir falar da homossexualidade de forma preconceituosa. E não há quem não tenha dúvidas, medos, interrogações. O que dizer? Como agir? O que não fazer?"

Para o casal de empresários, o que sobretudo os inquieta são "os outros, sempre os outros". A família, dizem, "pode aceitar ou não. O que, psicologicamente, o pode magoar. Mas, os outros... esses sabemos que são capazes de coisas sobre as quais nem queremos pensar".

É precisamente contra a intolerância e contra o preconceito que nasce a AMPLOS. Para os seus fundadores, Margarida e Paulo, é "uma questão de coerência". Tinham 16 anos quando aconteceu o 25 de Abril de 1974 e viveram aqueles tempos "marcados por uma promessa de emancipação social e de liberdade". Pertencem a essa geração. Baterem-se agora contra a discriminação relacionada com a orientação sexual é, consideram, "uma forma de coerência" com os valores que têm em vista uma "sociedade mais livre e igualitária". "Não podíamos ser cúmplices da ideia de uma educação contra a liberdade individual de um filho", afirma Margarida.

"Como mãe, o que mais me inquieta é saber que andam por aí muitos donos absolutos da verdade, que apontam o dedo a quem seja diferente, que acham que tudo isto é contagioso, que os homossexuais os podem prejudicar seriamente", explica Clarisse.

Num texto publicado no site da AMPLOS - http://amplosbo.wordpress.com - em Junho de 2009, os pais fundadores escrevem o que sentem: "Muito falta fazer para que os homossexuais sejam aceites, possam assumir abertamente a sua identidade, exprimir os seus afectos, casar, ter igualdade de tratamento jurídico; em suma, serem pessoas de pleno direito, serem cidadãos de plena cidadania." Explicam o que querem: "Ser um grupo de pais que se oiçam, esclareçam, acompanhem. Ser uma plataforma de informação e de apoios especializados, dando resposta às diferentes necessidades (individuais ou sociais) dos pais."E, ainda, constituírem um grupo de acção cívica "ao lado dos nossos filhos e de todas as organizações que defendem os seus direitos".

Desde que foi constituída, em Junho do ano passado, há cada vez mais pais que procuram a associação para partilhar experiências, inquietações e alegrias. Têm as mais variadas idades e vêm de meios sociais distintos. Às reuniões também têm chegado aqueles que não conseguem aceitar a orientação sexual diferente dos filhos. E que reagem de forma agressiva e intolerante devido às expectativas que neles depositaram. Há filhos e pais de costas voltadas, a sexualidade transformada em tema tabu. "É preciso entender que os filhos também têm direito a ter dificuldade em se assumir perante os outros", observa Margarida Faria, notando a importância de "não desrespeitar as suas decisões". Muitos destes jovens vivem no tal "armário", cuja abertura "requer, muitas vezes, uma pequena ajuda, mas na forma e no tempo que cada um escolhe". Mas "vale a pena": "Para os nossos filhos serem bem construídos como pessoas, não podem esconder a sua identidade", defende Margarida.

Silêncios e segredos

Mas também sucede que, quando os jovens ganham coragem para revelar aos pais a sua homossexualidade, "os pais voltam a colocá-los no seu "armário" e pedem-lhes para nunca mais saírem de lá". Ou "põem filho e armário fora de casa". Ou "põem-se dentro do armário" com o filho(a). Ou "põe-se a mãe no armário com o filho(a), pedindo-lhe que seja um segredo dos dois". Ou, ainda, "põe-se parte da família no tal armário para não magoar a outra parte". Uma sucessão de silêncios e segredos que tão frequentemente se segueà revelação e à tentativa dos filhos de se assumirem perante a sociedade (algo que os anglo-saxónicos definem como coming out).

Os pais, diz Margarida Faria, "nem sempre sabem como agir da melhor forma". Andam "a aprender a ser pais", eles próprios a aprenderem a sair do seu "armário" de pais, reprimindo o desejo de escancarar a porta e "celebrar todo o amor que sentem por esses filhos".

"Há pais que vêm simplesmente para conhecer e falar com outros pais; outros vêm dizer, angustiados, que não se sentem capazes de aceitar os filhos, num gesto de quem pede ajuda", relata a socióloga fundadora, que remata:"São histórias de famílias e nós estamos ali para as ouvir, sem julgar."

Por Paula Torres de Carvalh, in Público de 09-03-2010

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