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Lusa: 1º aniversário da AMPLOS
2010-10-17
amplos mães e pais livre orientação sexual

Miguel soube que era homossexual com 15 anos, mas só adulto ganhou coragem para contar aos pais, quando o desespero pelo desabafo já era insuportável. João soube pela mulher que o filho era homossexual e sentiu-se “cilindrado”.

Duas histórias distintas que se cruzam com a história da AMPLOS, a Associação de Mães e Pais pela Liberdade de Orientação Sexual, que nasceu e vive para combater todas as formas de discriminação relacionadas com a orientação sexual e ser uma ajuda para todos os pais que têm dificuldade em lidar com a orientação sexual dos filhos.

João (nome fictício) teve pela primeira vez conhecimento da AMPLOS logo depois de saber pela mulher que o filho era homossexual.
“A melhor figura para explicar a sensação é a de ter sofrido um acidente. Senti-me abalroado, senti-me cilindrado, porque nós temos expetativas, vivemos muito em função do futuro e nós projetamos o futuro através da extensão natural que são os filhos”, explicou à agência Lusa.

Ficou “arrasado” quando tentou avaliar o que o filho sentiu e pelo que ele passou “durante tantos anos, sozinho”, desde as primeiras manifestações da homossexualidade, mas agora sente uma “grande gratidão” pelo sacrifício que o filho fez.

“Eu não posso deixar de reconhecer gratidão pelo sacrifício que ele fez sozinho, porque não tenho a menor dúvida que a sociedade está formatada por pessoas como eu era há um mês atrás e os preconceitos levam gerações a mudar. Estou-lhe muito grato, porque de facto ele poupou-me”, reconheceu João.

Foi o filho quem recomendou aos pais uma visita ao sítio na internet da AMPLOS e pouco depois João participava numa reunião de grupo.
“Isto é uma questão que afeta sobretudo os familiares diretos e a constatação de que não estamos sós e de que noutras sociedades a questão é encarada de forma diferente ajuda a relativizar”, defendeu.

Miguel (nome fictício) experimentou o outro lado, o lado de quem percebe que é homossexual aos 15 anos, que sofreu o gozo dos colegas e que durante toda a adolescência sentiu que poucos o compreendiam.

“No segundo ano da faculdade, eu estava-me a sentir bastante isolado e foi nessa altura que contei aos meus pais, num ímpeto um bocado irracional, na altura, mas eu sentia que precisava de desabafar com eles”, contou à Lusa.

Teve medo que os pais não compreendessem, mas teve a certeza de que quanto mais cedo tomasse aquela atitude mais cedo os pais passariam pelo processo de aceitação.

Miguel ficou “aliviado” depois de contar, mas lembra-se que a reação dos pais foi de “choque” e durante muito tempo imperou um “pacto de silêncio” na família.

“A mim custava-me o silêncio, mas compreendia. Foi um processo de aceitação gradual, muito pelo silêncio, até ao surgimento da AMPLOS”, recordou Miguel.

No fim do ano passado, pais e irmã vão pela primeira vez a uma reunião da AMPLOS.

“Sei que foi muito importante para eles saber que há outros pais naquela situação, saber que não são os únicos e sei que foi algo que os ajudou”, garantiu.

Na família hoje “não há tabus” e os pais de Miguel já chegaram a conhecer o companheiro do filho, com quem ele vive há cinco anos.

AMPLOS

A sigla significa Associação de Mães e Pais pela Liberdade de Orientação Sexual e foi constituída a 16 de outubro de 2009 com o objetivo de combater todas as formas de discriminação relacionadas com a orientação sexual.

    “Aquela discriminação que tem efeitos mais dolorosos e mais graves é a que acontece no seio das famílias e há estudos sobre isso”, disse à agência Lusa a presidente da associação, referindo-se a um estudo norte-americano publicado no jornal da Academia Americana de Pediatras.

    O estudo revela que há uma relação direta entre a rejeição familiar e problemas de saúde futuros nos adolescentes e mostra que, entre as pessoas que sofreram rejeições profundas, há uma elevada percentagem (67,6 por cento) que tentou suicidar-se.

    “Por exemplo, quando há situações de ‘bullying’ nos ambientes escolares, se os pais estiverem do lado dos filhos isso é um contraponto fundamental, porque os filhos chegam a casa e têm o apoio dos pais”, defendeu Margarida Faria.

    De acordo com a responsável, “as agressões com maior efeito sobre a autoestima e o equilíbrio vêm da família”.

    São agressões que “podem durar uma vida inteira”, porque – explicou – “a relação entre pais e filhos é sempre de amor” e as atitudes dos pais “são feridas que se abrem”.

    “Noutro dia estive perante um caso de um pai que gritava tanto com uma jovem que ela perdeu os sentidos e depois eu perguntei-lhe: Neste momento o seu pai foi ao seu encontro? E ela disse-me: Não. Continuou a gritar até às cinco da manhã”, contou Margarida Faria.

    A responsável explicou que às vezes os pais “ficam numa situação de conflito familiar permanente”, que acaba por ter repercussões em toda a família.

    “Também sofrem os irmãos e às vezes há problemas de relacionamento entre pai e mãe, porque os ambientes em casa ficam muito complicados. Há situações em que o pai toma uma posição e a mãe toma uma posição diferente e pode haver ambientes familiares verdadeiramente violentos, situações em que o jovem quase que se vê forçado a procurar autonomia”, apontou a presidente da AMPLOS.

    Para ajudar os pais a lidarem com a orientação sexual dos filhos, a AMPLOS organiza encontros onde são partilhados os testemunhos e as histórias de vida de cada um.

    “O encontro com outros pais é logo parte da resolução do problema, porque as pessoas sentem que não tinham ninguém com quem falar. Vêm muito com o sentimento de culpa pela reação que tiveram e gostam muito de ouvir os outros pais dizer que as reações foram idênticas”, explicou Margarida Faria.

    A AMPLOS arrancou em 2009 com uma reunião de onze pais e atualmente já congrega 50. Para assinalar o aniversário da AMPLOS, a associação tem hoje um encontro que vai arrancar com a sessão habitual de pais, mas que desta vez conta com a organização dos filhos.

 

notícia LUSA, 17 Outubro 2010, por Susana Venceslau

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