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Famílias: muito tem mudado nos últimos anos
2011-03-05
famílias a diversidade familiar portuguesa

O casamento é igual à união de facto e esforçamo-nos menos por mantê-lo

"Um grande amor na vida"? Seis em cada dez dizem que existe. E a maioria dos que acreditam na alma gémea garante que já a encontrou. Muitos dos que se divorciam não pensam voltar a casar-se

É o retrato de uma sociedade em transformação acelerada. E algo confusa em relação ao que pensar sobre a forma como se vivem hoje as relações amorosas e conjugais. Por um lado, o casamento de papel passado perdeu importância - 65,4 por cento acham que é "equivalente à união de facto". Por outro, a maioria não tem dúvidas de que quando alguém decide casar-se está a dar um dos passos mais importantes na vida.

Ainda assim, generalizou-se a ideia de que hoje os casais não se esforçam tanto para manter o casamento. E que são menos tolerantes com as falhas da cara-metade - mais de oito em cada dez portugueses pensam assim.

A família, essa, continua a ser central na nossa vida. Mais do que a carreira, ou a segurança económica, por exemplo. Mas a maior parte das pessoas (86 por cento) acha que, por estes dias, ela é vista de forma diferente. E que funciona pior (ver entrevista nestas páginas). É o que revelam os resultados do estudo de opinião realizado em Fevereiro, pela Intercampus, para o PÚBLICO, com base numa sondagem telefónica a 1005 pessoas.

Com os divórcios a aumentar e o número de casamentos a cair a pique nos últimos anos, podia pensar-se que os portugueses perderam o romantismo. Mas longe disso. Seis em cada dez (59,9 por cento) estão convictos que existe aquilo a que se chama "a alma gémea" - os mais jovens, entre os 16 e os 34 anos, em particular.

Não é apenas uma convicção esta, a de que na vida há "um grande amor": a maior parte das pessoas que a partilham garante que já o encontraram (76 por cento).

Pedimos a três sociólogos que estudam a família e a conjugalidade em Portugal, a uma terapeuta familiar e a um psiquiatria para comentar os resultados da sondagem. Todos sublinham que ela não pode deixar de ser lida à luz do momento em que é feito este inquérito. E que momento!

A primeira década do século XXI foi marcada por mudanças tão profundas como esta: "Metade dos nascimentos de crianças em Lisboa já acontece fora do casamento, os pais não são casados. Eu própria fiquei abismada com estes dados, de 2009, e acompanho-os há muitos anos", diz Anália Torres, socióloga, professora do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, em Lisboa, e co-autora da lei do divórcio que entrou em vigor em 2008.

Como estamos a lidar com estas mudanças? "Nalguns casos, como sendo ameaçadoras", diz Gabriela Moita, psicóloga e terapeuta familiar no Porto. Também isso, diz, se reflecte nestas respostas.

43 por cento dos divorciados não pensam voltar a casar-se

"A permanência do mito romântico não é nada contraditória com o aumento dos divórcios", defende Pedro Vasconcelos, sociólogo e investigador do Instituto Superior da Ciência do Trabalho e da Empresa, em Lisboa. "Aliás, as pessoas acreditam tanto na relação que podem construir que não estão dispostas a viver algo que não seja a relação certa."

Sofia Aboim, do Instituto de Ciências Sociais, em Lisboa, com vários estudos publicados sobre conjugalidade e família, alinha na mesma ideia: "Se calhar, a insatisfação conjugal é cada vez maior porque o mito do romantismo constrói mas também destrói. Ou seja, deposita-se tantas expectativas na relação com uma pessoa, numa relação que vai preencher a existência, que depois a exigência colocada sobre a relação é tão grande que se pode tornar problemática, é uma fonte de frustração". Entre 2000 e 2009, a taxa bruta de divórcios passou de 1,9 por mil habitantes para 2,5, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE). Na década anterior, tinha aumentado apenas 0,8 pontos.

O que mostra a sondagem? A generalidade (60 por cento) das pessoas acredita que o casamento "é uma união que se pode dissolver". Uma convicção partilhada mesmo pelas que se dizem religiosas - e que representam 77 por cento da população.

A maior parte, já se disse, acha que o casamento equivale à união de facto - ideia que tem um peso especial entre os jovens e as pessoas com o ensino superior e menor no interior do país. Mais: a maioria não tem dúvidas de que hoje a sociedade aceita melhor o divórcio e há menos pudor em acabar um casamento.

Nada que leve Gabriela Moita a acreditar que as pessoas põem fim à conjugalidade de ânimo leve: "O que vejo na minha clínica são pessoas que, no fundo, acreditam que lindo, lindo é que a relação seja para a vida. Por isso, começam por pedir ajuda para se sentirem bem ali, no casamento, mesmo quando o amor acaba. E o que eu respondo é: "Por que é que há-de pedir ajuda para ficar num sítio onde não se sente bem?" Esta questão de acabar um casamento porque se deixou de gostar, é uma questão nova. E ainda há esta contradição: as pessoas passaram a casar-se por amor, o que não acontecia - o casamento era um contrato, ou um sacramento. Mas procuram os psicólogos porque não entendem como é possível que o amor possa acabar."

Não é de estranhar que seja tão difícil: nove em cada dez casados que acreditam na alma gémea acham que a encontraram. Uma percentagem que só é maior entre os viúvos (94 por cento).

O romantismo revelado pela generalidade dos portugueses é, contudo, abalado - e claramente abalado - por quem já viveu uma relação conjugal que teve um fim. Entre os divorciados, a percentagem de crentes na alma gémea desce para 50 por cento.

Mas não só: mais de dois quintos (42,6 por cento) dos divorciados e separados duvidam que voltem a casar-se ou a viver em união de facto (29,8 por cento dizem que têm a certeza, 12,8 por cento acham, simplesmente, que, "em princípio", não vai acontecer). As principais razões apontadas são, por ordem decrescente, "estar feliz" sozinho (23 por cento), o receio de voltar a viver com outra pessoa (18,2 por cento), a idade e o facto de se ser "muito independente" (13,6 por cento).

Quem já vive em união de facto também não pensa regressar a um casamento formal (oito em cada dez têm essa convicção). Porque não traz nada de positivo (afirma metade dos inquiridos), porque implica "muita burocracia" (17 por cento).

Jovens devem fazer sexo antes do casamento

"O grande amor é a grande fantasia", diz Francisco Allen Gomes, psiquiatra de Coimbra, conhecido especialista na área da sexualidade e na prática clínica da sexologia. Mas, quando acaba, as pessoas hesitam "em meter-se noutra", diz.

A razão que está por detrás desse comportamento espelha, na opinião do psiquiatra, uma outra grande transformação na sociedade portuguesa: "As pessoas podem satisfazer as suas necessidades sexuais e afectivas sem viverem como casal, isso passou a ser público e aceite. Os filhos falam das namoradas dos pais, vão todos juntos passar fins-de-semana e isso não significa que aquela relação vá durar. A sexualidade deixou de ser uma motivação para o casamento." E num lapso de poucas décadas esta ideia está tão arreigada que 69 por cento dos portugueses acham positivo que os jovens iniciem a sua vida sexual antes de se casarem - é entre quem tem o ensino superior que o peso dos que concordam com esta afirmação é maior.

Anália Torres nota, no entanto, que enquanto o número de casamentos tem descido, os "recasamentos" têm aumentado. "Menos do que noutros países, é certo, mas isso é natural. Noutros países existe divórcio há muito mais tempo." Ou seja, muitos não desistem de tentar de novo.

A sondagem que a Intercampus fez para o PÚBLICO revela ainda que a maior parte dos divorciados tem filhos (85 por cento). E a regra é, como seria de esperar, que sejam as mulheres a ficar com eles: 75 por cento das divorciadas têm crianças a cargo.

A adaptação pode não ser fácil, mas mais de metade dos inquiridos (55 por cento) diz que, depois da separação, se ajustou bem à nova forma de exercer as responsabilidades paternais. Já a percepção dos filhos pode não ser tão positiva. Pouco mais de um terço dos inquiridos, que fizeram o exercício de se colocarem no lugar das suas crianças, acreditam que elas não avaliariam positivamente a forma como os pais se saíram no processo de divórcio.

Falta de dinheiro explica adiamento da maternidade

A maioria dos portugueses adultos é, contudo, casada ou vive em união de facto. E tem relações duradouras - quatro em cada dez estão casados há, pelo menos, 31 anos.

A satisfação com a forma como lá em casa se partilham as tarefas é a regra - sendo certo que os homens estão mais satisfeitos do que as mulheres (92 por cento contra 78,6 por cento), o que não surpreende ninguém.

Apesar de terem filhos (na generalidade dos casos), as pessoas têm consciência de que o adiamento da maternidade e da paternidade é uma realidade que marca o país. E as razões económicas aparecem à cabeça das que justificam este adiamento (39 por cento). É no Sul que esta percepção é mais forte e entre os jovens dos 16 aos 34 anos.

Seguem-se as questões relacionadas com a carreira profissional (15,5 por cento), o desemprego (12,2 por cento), a instabilidade no trabalho (11,4). Há ainda o facto de hoje os jovens estudarem até mais tarde (8,6). Analisadas todas as respostas (esta era uma pergunta aberta), uma conclusão resulta clara: as questões materiais, a falta de dinheiro, a crise, são os grandes protagonistas na lista de culpados, na opinião dos portugueses, para que os bebés surjam cada vez mais tarde na vida dos casais.

Em média, as mulheres têm hoje o primeiro filho aos 28,6 anos - mais quase quatro anos do que em 1991, segundo o INE. E a percepção mais frequente é a de que este adiamento pode prejudicar um bom relacionamento entre pais e filhos; 42,8 por cento dizem que é "prejudicial", ou "muito prejudicial".

Ainda assim, imperam outros valores, explica Pedro Vasconcelos. "Os patamares de exigência hoje, para ter um filho, são outros." As pessoas querem dar tudo às crianças, em muitos casos, querem dar tudo o que não tiveram. E vão esperando para ter condições, mesmo que o seu ideal seja o de uma maternidade mais precoce - e ainda é, segundo Sofia Aboim. Quando as condições acontecem, acabam por optar por ter um só filho. Portugal é, aliás, dos países onde os filhos únicos têm mais peso, recorda Anália Torres.

A maioria relaciona-se sobretudo com colegas

A carreira profissional pode não ser o mais importante na vida - antes vem a saúde, em primeiro lugar, depois família (especialmente para as mulheres e para quem vive no Norte) e os amigos (em especial para os mais jovens e para quem vive na Grande Lisboa). Mas quase oito em cada dez portugueses respondem afirmativamente a esta pergunta: "A vida hoje em dia faz com que as pessoas acabem por se relacionar sobretudo com colegas de trabalho/escola?"

Allen Gomes considera este "um dado muito interessante" que remete para uma questão que tem sido objecto de estudo, já neste século, em países como os Estados Unidos, mas, tanto quanto sabe, não em Portugal. "As pessoas passam boa parte do seu tempo no trabalho, almoçam com os colegas, sentados, a conversar, algo que se calhar não fazem à noite, quando chegam a casa, com a família. E acabam por criar relações de maior intimidade do que aquelas que têm com o marido ou com a mulher."

Chegam a ser amorosas, estas cumplicidades nas empresas? "Há a noção de que, se houver sexo, essa relação estoira, a amizade acaba, por isso protege-se a relação - e protege-se a culpa. Fica esta espécie de amor platónico, nem sei como chamar-lhe."

A infidelidade aumentou? Para 80 por cento, é igual

O último inquérito sobre sexualidade, publicado este ano pela Bizâncio (Sexualidades em Portugal), mostrava que 17 por cento das pessoas que viviam em casal havia pelo menos cinco anos confessavam que já tinham sido infiéis. Sofia Aboim, uma das autoras, dúvida do número. "As pessoas não são honestas em relação a estas perguntas, a percentagem será mais elevada."

A sondagem da Intercampus para o PÚBLICO continha algumas questões sobre o tema. Hoje em dia, há mais infidelidade do que havia antigamente? Ou é a mesma coisa, só que sabe-se mais? As respostas fazem sorrir os especialistas. Porque, no essencial, os portugueses respondem afirmativamente a ambas - ainda que ganhe a segunda, com 80 por cento de "votos". Se lhes perguntassem se eles eram infiéis, diriam que não, diz Pedro Vasconcelos. É um clássico: "Em inquéritos deste tipo, as pessoas tendem sempre a dizer: "Isto agora é uma desgraça, há mais infidelidade, as famílias funcionam pior", apesar de, ao mesmo tempo, revelarem algum modernismo (aceitam as uniões de facto, as relações sexuais antes do casamento)."

Uma coisa é certa, diz Gabriela Moita, "não há nenhum fundamento para sustentar que hoje os casais são mais infiéis" - "O que há de diferente, isso sim, é que a não exclusividade passou a ser razão para desfazer um casamento", o que não acontecia há poucas gerações atrás.

O papel que as novas tecnologias têm hoje não tranquilizará muito os que vivem preocupados com a forma como se comportam os/as companheiros/as. Sete em cada dez acham que a Internet e as redes sociais contribuem para que haja mais infidelidade. Utilizadoras ou não de Facebook e afins - a sondagem não permite destrinçar -, a visão geral que as pessoas têm das novas tecnologias não deixa de ser surpreendente. Mais de metade (54,8 por cento) diz que "as novas tecnologias dificultam o relacionamento pessoal". E mesmo a população mais jovem pensa assim, ainda que em menor percentagem. Contudo, a Internet também serve para "encontrar alguém por quem as pessoas se possam apaixonar" (defendem 63,9 por cento dos inquiridos) e "promove encontros sexuais ocasionais" (77,9 por cento). O que concluir? "Mais uma vez, face a estímulos e a coisas relativamente novas, como as redes sociais, as pessoas têm opiniões extremamente ambivalentes", diz Sofia Aboim.


No ano passado, Portugal transformou-se no oitavo país do mundo a aprovar o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. Como vêem os portugueses estes casais? À primeira vista, acham que eles são muito parecidos com os heterossexuais. Mas não devem poder adoptar crianças, defendem.

Números: 33 por cento dos inquiridos dizem que as relações destes casais são tão duradouras quanto as dos casais de pessoas de sexos diferentes. Entre 37 por cento e 45 por cento, acham que partilham as tarefas da mesma forma. E que não há diferenças ao nível da seriedade com que encaram o casamento. Ou da fidelidade com que se dedicam à relação. Mais: quando se pergunta que direitos devem ter, a maioria (59 por cento) defende que devem ter os mesmos que os outros - ainda que um quarto da população entenda que deviam ter menos. Apesar de tudo, a ideia de que há discriminação é consensual: 82,4 por cento das pessoas acham que os casais de pessoas do mesmo sexo são menos aceites pela sociedade.

Os homens, tendencialmente, discriminam mais do que as mulheres, os jovens são mais favoráveis a direitos iguais, bem como as pessoas que vivem na Grande Lisboa e no Sul do país. De resto, sobre nenhum outro tema da sondagem se verificam respostas tão contrastantes entre os mais jovens e os mais velhos. "E o que estes dados mostram é uma tendência grande de mudança nas gerações mais novas", diz a socióloga Sofia Aboim. Outra tendência sobressai das respostas: a elevadíssima percentagem de pessoas que não respondem. "É aquela coisa portuguesa do "tenho uma opinião menos favorável, mas vou dizer que não sei". Porque sabemos que a aceitação do casamento entre pessoas do mesmo sexo não é assim tão positiva."

Quando se fala na adopção, quebra-se a ideia dos direitos iguais. A maioria (62 por cento) diz que estes casais não devem poder adoptar crianças (o peso é ligeiramente superior entre os que se consideram religiosos) e apenas 28,3 por cento defendem o contrário. Não é possível comparar estudos, mas há este indicador: o Eurobarómetro de 2006 indicava que apenas 19 por cento dos portugueses admitiam a adopção por casais gay. O sociólogo Pedro Vasconcelos admite que possa estar a assistir-se a uma maior abertura. Mas lembra que a discussão sobre a adopção está "embrionária" depois de ter sido muito intensa em torno do casamento. A.S.


Maria Alda, Armando Alves, Maria Armanda e Amanda Ribeiro
"Nenhum rapaz queria uma rapariga em segunda mão"
Por Natália Faria

A avó casa para sempre, a filha é a primeira a divorciar-se e a neta sai de casa para viver sozinha. As mudanças na família, contadas por três gerações de mulheres
   
Maria Alda casou-se com Armando e jurou diante de um altar que seria até que a morte os separe. Armanda também acreditou que o seu casamento haveria de ser eterno, mas, poucos anos e uma filha depois, divorciou-se e jurou que, casamento, nunca mais: a sua família haveria de ser em modo monoparental. Amanda saiu de casa para viver sozinha, pensa namorar enquanto for bonito e casamento não está nos seus planos - filhos talvez, logo se verá como e com quem.

Três gerações da mesma família sentaram-se à vez no sofá castanho da sala dos avós para falarem sobre o casamento - se é eterno ou apenas enquanto dura - os filhos, o trabalho. A separá-las estão diferenças que dariam para encher uma albufeira. A ideia de ter no casamento o acto fundador da família, que ainda hoje acompanha a avó, Maria Alda, 75 anos, é para neta, Amanda Ribeiro, 23 anos, de um anacronismo insuperável. Em poucos anos, o casamento passou de sagrado e indissolúvel a dispensável: vive-se em união de facto; casa-se porque sim, porque chegam os filhos, com uma pessoa de sexo diferente ou do mesmo; namora-se a partir do Facebook, MySpace ou Hi5. As famílias são tradicionais, recompostas, monoparentais, unipessoais, volúveis - em permanente reinvenção, mas famílias.

Recuemos a 1955. No dia 11 de Setembro, Maria Alda e Armando Alves entram na igreja da Antas, no Porto, e juram diante de um padre católico que a fidelidade haveria de ser na saúde e na doença, na pobreza e na riqueza. O actor James Dean haveria de morrer daí a duas semanas, nos EUA, mas o mito que a sua morte inaugurou, e que mandava viver depressa e morrer cedo, tardaria a soar por aqui. Entre estes dois, o namoro durou cinco anos e não consentia beijos em público, sequer na face.

- A rapariga ficava logo mal vista. Não quer dizer que às vezes não andasse de braço dado com ele mas, na despedida, era um aperto de mão e mais nada" - recorda Alda.

- Não é como agora, em que se beijam com um à-vontade extraordinário, na rua, no autocarro, onde calha - reforça Armando.

- Dantes, se déssemos um beijinho na rua, até nos arriscávamos a que viesse a polícia -, retoma Alda.

A virgindade era um valor absoluto ("Nenhum rapaz queria uma rapariga em segunda mão", explica Alda) e o namoro bordava-se nas conversas permitidas nas viagens entre a saída do trabalho e o eléctrico ("Era um gostar à distância: um aqui, outro acolá, com respeito"). É o Portugal das noivas de Santo António que Amanda Ribeiro só pode espreitar pelos livros de história e pelos álbuns de fotografias dos avós. "Eles para mim representam o amor eterno que, às vezes, julgamos que só existe nos filmes", diz esta jornalista que há seis meses deixou a casa da mãe para se instalar sozinha num T1 da Baixa do Porto. Apesar de ter sido a primeira da família a sair de casa sem ser para casar, teve todo o apoio da família. "Não houve nenhuma ruptura, foi só mesmo a vontade de ter um canto". Liberdade total para viver ao ritmo que lhe apetece, portanto. "Adoro sair à noite, estar com pessoas, namorar". Aqui e ali, a sua história amorosa toca as redes virtuais: Hi5, MySpace, Facebook, é só nomear. "Já estive com pessoas que conhecia na Internet e, sim, já houve sms trocados a altas horas da madrugada, links enviados, e-mails enviados, telefonemas que duraram três horas...".

"Cinema à noite, não"

Ensanduichada entre esta avó e esta neta, Maria Armanda, 53 anos, foi a primeira a divorciar-se na família. O primeiro beijo foi aos 15, seguem-se três namorados. "Havia o tabu da virgindade e as saídas eram muito controladas. Cinema à noite, nem pensar". A mãe, Alda, às vezes, lá encobria umas escapadelas mais prolongadas e testemunhava perante o pai que a filha ia dormir em casa de uma amiga que fazia anos. "A Lena, cujos pais o meu marido conhecia, há-de ter hoje uns 150 anos de tantos aniversários que lhe inventámos", recorda Alda.

Mais a sério, Armanda sustenta que foi também por causa desses espartilhos que o terceiro namorado - o patrão da empresa de transportes em que trabalhava - se tornou marido ao fim de apenas seis meses de namoro. "Queria mais liberdade, sair à noite...". O patrão era viúvo e pai de duas raparigas. O casamento faz-se pela igreja e Armanda, tal como a mãe antes de si, deixa de trabalhar. "Ele delegou a educação das filhas em mim e eu acabei por deixar de trabalhar, também porque ele achava inconciliável eu trabalhar no sítio em que ele era o patrão e onde os empregados me conheciam e me tratavam por tu". Armanda assume-se como esposa, mãe de duas filhas que não tinham saído do seu ventre e dona de uma casa na qual, ao fim de poucos anos, o marido passava cada vez menos tempo. "No início, foi bom, fizemos muitas viagens, depois a chama baixou, até que chegámos a uma altura em que ele quase não aparecia para jantar e eu sentia que não tinha o apoio dele, nem sequer nas questões relacionadas com as filhas".

"De uma prisão para outra"

Armanda já tinha uma filha sua quando recusa fechar os olhos às infidelidades do marido. "Mesmo nessa altura, era comum as mulheres aceitarem as traições dos homens, mas eu nunca aceitei. Primeiro separei-me e, dois anos depois, divorciei-me. Durante esse período, ele ainda tentou a reconciliação, mas entretanto teve um filho de outra mulher e isso para mim foi o xeque-mate na relação".

Armanda divorcia-se disposta a depender de si: família monoparental, muito antes de a palavra ter adquirido expressão nas estatísticas do INE. "Eu tinha saído de uma prisão, que era a casa dos meus pais, para entrar noutra. Enquanto estive casada, às oito horas tinha que estar a jantar e depois tinha que ver os programas que ele gostava de ver na televisão, futebol e tudo isso. Fiquei saturadíssima daquilo tudo. Quando me separei, já tinha voltado a trabalhar e foi aí que comecei a ganhar uma liberdade e uma independência que nunca tinha conhecido: poder gerir o meu tempo, ir ao ginásio, tirar um curso, sair e não ter horários rígidos para almoçar nem para jantar...".

Amanda cresce assim entre a mãe, uma tia e, claro, os avós. Do pai, com o qual se corresponde por email, ficaram-lhe duas meias-irmãs e vários sobrinhos com os quais mantém uma relação próxima. "O meu pai, mesmo quando estava casado com a minha mãe, nunca esteve muito presente, portanto, nunca foi uma coisa que me faltasse ou cuja ausência me fizesse sentir uma grande dor. Tive colegas cujos pais se divorciaram e que sofreram um choque tremendo mas isso terá sido porque o divórcio quando eles eram mais velhos".

Deste background familiar, Amanda acredita ter retirado uma maturidade precoce. "Acho que percebi mais cedo que as pessoas não são eternas, que não estão cá para sempre e que nós só podemos contar connosco". Sem traumas. Ao contrário: "Aprendi a ser sozinha, ou a estar sozinha, ou a ser independente muito cedo". A ser mais autónoma também. Mas aqui também haverá créditos maternos porque, depois de uma adolescência milimetricamente escrutinada, Armanda concedeu à filha a liberdade que nunca teve. "Aos 14 anos foi sozinha, com um grupo, para Inglaterra, tirar um curso. E sempre a deixei sair, muitas vezes ia buscá-la às cinco da manhã, mas claro que isso só foi possível porque ela nunca me mentiu, por um lado, e sempre foi uma óptima aluna, por outro".

Pela mãe, Amanda há-de ser o que quiser. Lésbica, heterossexual, mãe de filhos - muitos, poucos - casada, numa igreja ou debaixo de uma ponte, família unipessoal, monoparental, em regime de living apart togheter, ou seja, namorando mas cada um em sua casa, se faz favor, para que não se confundam os hálitos matinais. "Não me vejo casada, porque tenho o casamento como um contrato, mas vejo-me a viver com alguém, talvez com filhos", perspectiva Amanda. Não já, que primeiro, está a profissão. "Tenho a sorte de trabalhar naquilo de que gosto mas quero criar uma base mais sustentável e sei que os filhos me iriam alterar o ritmo. Portanto, quero, mas ainda não são a minha prioridade". Certeza: "Toda a gente devia viver na mesma casa antes de casar ou de ter filhos para ter a certeza que consegue aguentar o dia-a-dia, o passar a ferro, o lavar a roupa, as más disposições".

A avó concorda que "é uma maneira inteligente de pensar". O problema, sustenta a septuagenária, é quando se vive depressa demais, à maneira de James Dean. "As pessoas casam sem conhecer bem o outro e depois esquecem-se que as pessoas às vezes parecem um lago e escondem um vulcão. A paixão é uma fumaça: arde e acaba. O amor fundo é o que fica, o que permite o companheirismo, o que permite desabafar, dizer tudo".

Alda, que deixou de trabalhar quando casou, olha hoje para as mulheres e diz que o que sente é compaixão. "As mães hoje são muito sacrificadinhas, muito. Vejo-as de manhã, com a saca delas, a saca dos filhos, os miúdos a dormir às costas. Vão trabalhar e nem tempo têm para ver os filhos coçar a cabeça. Porque a maior parte dos homens continua a ser muito machista, encosta-se às mulheres e, pronto, é mais um filho que elas têm para cuidar".

Sobre um casamento feliz que vai a caminho dos 56 anos, apesar de ela ser uma ferrenha do FC Porto e ele do Sporting, Alda diz que o segredo é o respeito. "E a compreensão", atalha Armando,

- Claro. Se um chega a casa aborrecido, a obrigação do outro não é deixá-lo mais aborrecido, é ter uma meiguice, um carinho... - reforça Alda.

Se for assim num casamento gay, então que seja: "É um bocado esquisito, mas se uma mulher gosta de uma mulher, também não há direito de andar a maltratá-las. "São", remata Alda, "sinais dos tempos: há que respeitar". Armanda também respeita "a cem por cento" as novas formas de estar em família, desde que não a obriguem a casar. "Para ter uma relação com uma pessoa, não é obrigatório viver com ela".

O importante numa relação , reforça a neta, "é assegurar a tal harmonia das individualidades".

Se calhar, não é tanto assim o que as separa.


"Temos alguma dificuldade em acompanhar a modernidade"
Por Andreia Sanches

A família mudou e as pessoas acham que foi para pior. Para a socióloga Sofia Aboim isso tem a ver com a rapidez das mudanças


Acham que a vida se tornou mais solitária. E que a família "antigamente era melhor". As mudanças registadas nos últimos anos, na família e no casamento, têm sido tão rápidas que os portugueses revelam alguma "dificuldade em acompanhar a modernidade", diz a socióloga Sofia Aboim. A autora de vários estudos na área da família e conjugalidade, investigadora do Instituto de Ciências Sociais, em Lisboa, escreveu um dos capítulos do último volume da História da Vida Privada. Nesta entrevista, analisa a sondagem do PÚBLICO.

Os resultados desta sondagem reflectem muitas das mudanças sociais que se têm registado em Portugal. Como é que as lê?

Os anos 90 foram uma década de mudanças muito acentuadas, com mais casais a viver em união de facto, menos casamentos. Agora, o que aconteceu na primeira década dos anos 2000 foi espantoso. Tivemos uma inversão completa, por exemplo, no que diz respeito ao casamento católico. No ano 2000, 65 por cento das pessoas que se casavam, casavam-se pelo religioso; em 2009, a percentagem caiu para 43 por cento. Ou seja, entre 1990 e 2000 diminuiu seis, sete pontos percentuais, mas entre 2000 e 2009 diminuiu mais de 20 pontos.

E porquê?

Porque há um afastamento da Igreja, uma menor importância da ritualização do casamento. Nesta sondagem do PÚBLICO, há um dado muito interessante: as pessoas dizem que o casamento católico não acrescenta nada à conjugalidade. A resposta é esmagadora (75 por cento) e não há diferenças entre pessoas de diferentes gerações.

E, no entanto, a esmagadora maioria considera-se religiosa...

O que mostra que a ideia de religiosidade tem vindo a transformar-se. Há uma visão muito diferente da relação das pessoas quer com a vida familiar e com o casamento, quer com a Igreja. Durante muito tempo, achou-se que a religiosidade das pessoas ia cair a pique. Hoje sabe-se que não. As pessoas continuam a achar, como se vê, que são religiosas. O que há é uma religiosidade mais individualizada. As pessoas não vão à igreja, ou vão só quando lhes apetece, ou podem nem sequer ser católicas - sendo que, em Portugal, a grande maioria dos que se definem como religiosos define-se como católica -, podem estar à procura do sentido da vida. Por detrás de todas estas mudanças tem que haver necessariamente uma mudança de mentalidades. Se estivéssemos a falar de política, ou de ambiente, aí as opiniões são geralmente mais voláteis. Já as mentalidades, o que tem que ver com a vida privada, tem tendência a mudar lentamente. Ora nós, em Portugal, estamos a mudar muito rapidamente.

Pode ser negativo?

Não diria isso. Estas mudanças têm ocorrido noutros países, nós temos é feito o caminho de forma mais acelerada.

Tivemos um regime autoritário muito prolongado, há traços de conservadorismo na sociedade portuguesa, mas, por outro lado, o facto de as mulheres terem acesso a uma autonomia financeira, por exemplo - e temos uma das percentagens mais elevadas de mulheres a trabalhar na Europa - contribuiu para uma mudança muito rápida. Houve uma grande mudança feita no feminino.

As pessoas têm clara percepção das mudanças, nomeadamente ao nível da família, mas não é certo que as achem positivas, pois não?

Há uma pergunta na vossa sondagem que é: "Quais são as principais diferenças na vida familiar?" As pessoas responderam o que quiseram. E, se olharmos para as respostas, há coisas muito interessantes. A primeira delas é que acham que a família está pouco unida. Algo que é referido ainda mais, curiosamente, pela geração mais nova. Diria que esta é uma ideia algo conservadora.

Porquê?

Porque implica um imaginário de que, no passado, havia uma família muito unida, coesa, feliz, contra um presente muito mais negro. A "falta de educação" é a segunda grande mudança registada pelas pessoas. E o que é que está por detrás disto? É o respeitinho, à portuguesa, aquele respeitinho hierárquico entre homens e mulheres e entre pais e filhos. É referido sobretudo pelas pessoas mais velhas da amostra. As pessoas dizem ainda que há hoje menos convivência familiar, menos valores do que havia, mesmo os mais jovens. Não dizem que há mais diálogo; só dois por cento das pessoas nesta sondagem é que acham que a família está mais unida, e o facto de haver mais igualdade só há cinco pessoas a referi-lo. É absolutamente irrelevante para as pessoas que haja hoje mais igualdade. Para resumir, olhei para todas as respostas [era uma pergunta aberta] e tentei perceber se as pessoas achavam que a família tinha mudado para melhor ou para pior. E a maior parte das coisas que são referidas é negativa. Isto nas três gerações analisadas [dos 16 aos 34 anos, dos 35 aos 54 e pessoas com 55 anos ou mais]. Quando se pede: "Diga lá, assim, da sua cabeça, no que é que acha que a família mudou", há uma visão quase romantizada do passado, como se "dantes é que fosse bom", o que, de resto, é uma tendência que as pessoas têm. Acho que isso é bastante significativo.

Significa o quê?

Quando se fala em família, o conservadorismo é a reacção mais imediata das pessoas. Uma reacção quase não pensada. Mas, quando vamos ver os relatos de antigamente, era a fome, a miséria, maus tratos entre pais e filhos, maus tratos conjugais. E perguntamos: "Mas que relações eram estas?"

Estes inquéritos sobre a família revelam sempre uma ambivalência imensa, talvez, precisamente, porque as mudanças estejam a acontecer de forma muito rápida. Um caso paradigmático é quando se pergunta nalguns estudos se as pessoas acham que as mulheres devem trabalhar fora de casa. Uma enorme percentagem diz que sim, claro que sim. Mas depois pergunta-se: "O trabalho das mulheres é prejudicial para as famílias, para os filhos?" E também dizem que sim.

E o que é que significa as pessoas dizerem que hoje somos menos tolerantes com as falhas dos nossos companheiros?

Gostaria de perceber se as pessoas acham que isso é bom ou mau. Pode haver a tendência para encarar isto como uma crítica, mas também pode ser algo positivo. Na pergunta sobre se existe um esforço tão grande como no passado para manter um casamento, não há grandes clivagens geracionais, as pessoas tendem a concordar que não há. E isto pode simplesmente querer dizer que pensam que não devem sacrificar-se a todo o custo para manter uma fachada institucional. Acho que estas respostas podem inclusivamente reflectir uma maior importância das relações afectivas.

Também não podemos ver isto de outra forma: desistimos demasiado facilmente?

Não sei se isso é verdade. Há um dado muito interessante da sondagem: a esmagadora maioria das pessoas acredita que existe uma alma gémea. E a maior parte das pessoas diz que já a encontrou. É "um grande amor na vida", que é superior aos outros, não é a ideia de que pode haver vários amores. Se houvesse um descrédito tão grande nas relações conjugais ao ponto de acharmos que ao primeiro aborrecimento desistimos logo, então teríamos um romantismo em declínio. E não temos.

Mas, repare, não haveria conjugalidade moderna sem esta ideia. Antes, o casamento nada tinha a ver com o amor. Foi o romantismo que criou esta relação do amor com o casamento. E o que seria dos romances, do cinema, das novelas, sem este ideal do romantismo!

Se esta pergunta tivesse sido feita noutros países, seria diferente?

Eventualmente, não. O mito romântico é fundador, é uma coisa ocidental e que se tem espalhado, e que se comercializou - o Dia de São Valentim, daqui a bocado, é quase tão importante quanto o Natal.

Mas as pessoas também acham que hoje levamos uma vida mais solitária do que antigamente: 71 por cento.

É esmagador. Mas há que não esquecer que este inquérito foi feito numa altura em que andávamos a falar da senhora que esteve morta em casa nove anos. Acho que há uma ideia global de que há uma solidão maior, uma solidão urbana, porque a família já não é tão grande como era, há menos irmãos...

É uma ideia ou uma realidade?

Não sei se é uma realidade. É evidente que, se pensarmos no interior despovoado, onde está meia dúzia de idosos, claro que estão mais sós. Mas o número de pessoas a viver sozinhas é diminuto em comparação com outros países (17 por cento, segundo o último Censos) e não creio que vá ser exponencial.

A verdade é que o nosso nível de exigência aumentou muitíssimo. Em relação ao que é estar acompanhado, ao casamento, ao consumo (temos que ter mais coisas). Somos uma sociedade material e emocionalmente mais exigente. E há uma ideia de que temos que ter imensa intimidade - é muito frequente as pessoas divorciarem-se e dizerem que não aguentavam os silêncios. A intimidade é uma invenção moderna.

Temos dificuldade em acompanhar a modernidade?

Nalguns aspectos, temos dificuldade em acompanhar a modernidade... As pessoas frisam que o casamento agora não tem importância nenhuma, que viver junto é igual, que o divórcio se aceita, que os casais do mesmo sexo devem ter os mesmos direitos e que até são muito parecidos com os casais de pessoas de sexos diferentes, mas depois também realçam a negatividade da mudança, por comparação a um passado onde haveria mais comunhão, mais solidariedade.

Temos facilidade em aceitar a quebra de valores religiosos, mas maiores dificuldades em aceitar as consequências de um processo de maior autonomia dos indivíduos, que vem com a maior democraticidade, a liberdade e que faz parte, no fundo, da vida moderna. A ausência de regras tão rígidas é vista como positiva, agora uma espécie de maior solidão que ela acarreta - porque estamos menos ancorados em instituições - é algo com o qual as pessoas não vivem muito bem em Portugal.

Daí a ideia de que somos mais solitários, de que a família está desunida...

Sim. Sermos menos controlados pelas instituições é algo que acolhemos bem. Mas se essa autonomia nos fizer sentir que perdemos um pouco o cimento colectivo, mesmo que isso seja um pouco um mito, as pessoas já não reagem muito bem.

Não queremos voltar ao passado, mas temos receio e esse receio não desapareceu na geração mais nova, que também tem essa visão de que a família está desunida e de que estamos mais sós.


Redes sociais são combustível para a infidelidade?
Por Ana Cristina Pereira

"Muitos casais vivem obcecados com a ideia de descobrir se o outro lhe é infiel", diz terapeuta familiar. Vigiam-se na Internet

Antes, a suspeita podia nascer dos excessos do conta-quilómetros, da conta bancária, do horário. Agora, qualquer rede social pode fazer disparar o alarme. Comenta demasiado as fotografias ou as palavras de alguém? O que escreve? E como reage o outro? As novas tecnologias introduziram algumas mudanças na forma como as pessoas se relacionam umas com as outras. Sete em cada dez portugueses consideram-nas um combustível para a infidelidade.

Não há quem não tenha uma história para contar. Basta lançar o repto na mais popular rede social, o Facebook, para as coleccionar. Ora, leia esta: "A melhor foi a de uma colega de trabalho que estava a meio do expediente. Ligou o Facebook e leu um daqueles posts de perguntas acerca de amigos na página do marido. Era qualquer coisa como: "P: Quando é que X é mais mal disposto? R: Ao pequeno-almoço." Ela perguntou-nos o que achávamos que aquilo queria dizer. Foi um pé-de-vento lá em casa."

O desconfiado pode vigiar o perfil do companheiro. "Hoje, ao contrário do passado, a não exclusividade é razão para desfazer um casamento", nota a terapeuta familiar Gabriela Moita. "E muitos casais vivem obcecados com a ideia de descobrir se o outro lhe é infiel. Controlam os telemóveis, o Facebook, a Internet, tornam a vida, a sua e a do outro, terrível."

Na Internet, como fora dela, nem sempre o que parece é. Só para lançar a confusão, lembra a psicóloga Catarina Ribeiro, uma pessoa pode escrever no mural de outra: "Adorei o nosso último encontro." Até um casal estável pode ser permeável a um comentário deste tipo. Uma mulher inquietou-se ao ler no mural do marido: "Não podemos adiar o nosso reencontro." Não era, afinal, uma amante. Era uma antiga colega de escola que o queria reencontrar.

As redes sociais têm a particularidade de trazer, de enxurrada, figuras de outros tempos. Sobram histórias de namorados da adolescência ou da juventude que se reencontram na Internet, e que, embalados pela intensidade do passado, idealizam um futuro. Quantos casados?

O psiquiatra Allen Gomes não sabe se a infidelidade aumentou. Sabe que "as pessoas são apanhadas". "Porquê? Porque têm um desejo tão grande de ser amadas que guardam as mensagens escaldantes que recebem no Facebook e no telemóvel. Não as apagam. E são descobertas. É como as cartas de amor de antigamente, que se guardavam com um laçarote."

A escritórios de advogadas como Rita Sassetti chegam cada vez mais casos de divórcio resultantes de infidelidades descobertas nos computadores e nos telemóveis. Um estudo britânico responsabiliza o Facebook por 20 por cento dos divórcios. Em Portugal, não há estudos. Os portugueses, todavia, parecem convencidos dos poderes (maléficos?) das novas tecnologias: 55,4 por cento concordam e 16,2 por cento concordam completamente com a ideia de que contribuem para o aumento da infidelidade. Esta crença é mais forte no Norte litoral. E mais fraca entre divorciados.

Para Gustavo Cardoso, especialista em tecnologias de informação, não tem sentido culpar as novas tecnologias: "A lógica das redes sociais é multiplicar as relações fracas e aprofundar as relações fortes." É inegável que a Internet alarga o universo de pessoas acessíveis. A paixão, porém, requer bem mais do que isso. Tem de haver uma certa predisposição para a viver. "Se as pessoas querem ser infiéis, tanto podem sê-lo saindo à noite, como indo ao Facebook", enfatiza. "É possível ser mais infiel no Facebook? É. Até se pode ter seis janelas abertas ao mesmo tempo."

"Redes agudizam conflito"

Se pode ser mais fácil começar, também pode ser mais difícil terminar um namoro. Há até quem saia do Facebook para controlar a tentação de espreitar o perfil do ex. Eliminá-lo da lista de amigos não chega: o ex aparecerá, como um fantasma, via comentários feitos a amigos comuns.

Maria Tomé, 35 anos, já assumiu um namoro no Facebook. Mudar o estado de "solteiro" para numa "relação com" pareceu-lhe "natural": "Toda a gente sabia que namorávamos." No fim, teve de mudar de "numa relação com" para "solteiro". "Muita gente soube por lá. As pessoas começaram a fazer perguntas." E a ansiedade era a dobrar, porque na mesma altura terminara uma relação de amizade com uma amiga do ex-namorado. Andava atenta ao perfil de um e de outro para detectar as piadas que podiam surgir de um lado ou de outro. E sentia-se humilhada.

"As redes sociais agudizam o conflito", avisa Catarina Ribeiro. "As pessoas usam-nas para fazer a catarse, que fariam em privado. Um faz o desabafo sem o consentimento do outro e aquilo fica disponível para muita gente consultar." O problema parece-lhe mais grave quando envolve crianças, que podem ser usadas ou ler o que ali se escreve. com A.S.
 

Reportagem: in Público, Março 2011, por Andreia Sanches (e outr@s, identificad@s)

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