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Roteiro da noite lésbica. Uma viagem pelos spots mais in de Lisboa
2012-04-01
roteiroles
Sem tabus, uma jornalista mergulha nos espaços onde reina o pink-money, a sensualidade  e a independência. Uma dimensão onde a mulher é soberana.
 
Mergulhei nesta odisseia cheia de expectativas. Percorri Lisboa de uma ponta à outra com o objectivo de fazer um roteira da noite lésbica da capital. Foi libertador viajar por um universo diferente. Ambiente que não incluem homens, nem mesmo em pensamento. Os corpos reconhecem-se, somos magneticamente atraídas e é surpreendente a rapidez com que rostos desconhecidos se tornam familiares. Iniciei a viagem de forma acanhada e fui-me libertando aos poucos. Uma atitude sensual apoderou-se de mim e a mina experiência tornou-se estranhamente eloquente. Abertos ou com porta fechada, longe de olhares indiscretos, entrámos nos spots mais in de um reinado onde a mulher é soberana. 
 
O começo da aventura
Sexta-feira. Saí da redacção e liguei para a minha amiga Marta, 28 anos. Ela era a pessoa indicada para me acompanhar numa viagem pelo desconhecido. «Preciso de me abstrair de homens», disse-lhe. Éramos adolescentes quando, em laia de brincadeira, trocávamos beijos inocentes. «Prova de amigas», dizia-me infantilmente. Tornou-se uma mulher interessante, bem sucedida, lésbica sem problemas por resolver. Antes de sairmos, fiz-lhe uma série de perguntas. Como agir? Vão todas perceber que não sou lésbica? Existe algum dress code adequado? Deixou-me sem respostas. Um pouco mais tarde, estacionámos o carro perto do Bairro Alto e a Marta levou-me ao restaurante Louro e Sal. O nome era sugestivo. 
 
Jantar sem homens
No Louro e Sal o ambiente é acolhedor e intimista. A decoração é feita de tons de preto e creme Quando dou por mim, estou sentada com três amigas da Marta. Conversam, riem e têm entre elas uma química saudável. Nem por um momento o tema se foca em homens. Falam de trabalho, de projectos futuros e bombardeiam-me com curiosidades sobre a Happy. Deixo-me contagiar pela cumplicidade que existe entre elas. Nunca tinha tido essa sensação com as minhas amigas. Acho que perdemos demasiado tempo a dizer mal dos homens e a comparar histórias infelizes. Saímos do Louro e Sal e subimos a Rua da Atalaia até ao restaurante Black Swan. Alguém as chama pela janela e, num piscar de olhos, estou com um copo de vinho na mão. Lá dentro, o ambiente transpira feminilidade. Dou por mim a pensar se estarei a passar a mensagem certam se estarei a agir em conformidade... mas elas nunca me fazem perguntas sobre as minhas preferências sexuais.
 
In the mood for lust
A minha noite continua em direcção ao Purex, um bar acolhedor onde a música se funde com a arte. O resultado é um espaço de inspiração boémia e burlesca com ambiente retro. É pequeno e vejo caras conhecidas por todo o lado. Não sei quem são mas lembro-me de as ter visto na televisão, gente da música ou actrizes de alguma telenovela. O espaço está lotado e mal me consigo mexer. Há nuances interessantes. Reparo numa gaiola pendurada do tecto. O poleiro são uns carnudos lábios vermelhos e pequenos batons flutuam lá dentro. De repente, alguém me oferece uma bebida. Colado ao copo está um post-it com um número de telemóvel rabiscado. Porque nunc a pensei nisso? Há quem converse, há quem namore, e, ao fundo, uma pequena pista de dança faz as delícias de quem se arrisca a dar os primeiros passos ao som da batida eletrónica. Lúcia está sentada num banco igual aos das carruagens de comboio. É fotógrafa e diz que não conseguia viver fora de Lisboa. «A fotografia é a minha vida e é aqui que me inspiro. Na calçada, nas ruas, nas cores, nos sons, nas pessoas. Aqui estou à vontade. Posso ser eu própria e não me sinto inibida quando beijo a minha companheira em público. Houve tempos em que me sentia oprimida. Porquê? A vida é tão curta.»
 
Atmosfera sedutora
Sigo caminho até ao número 49 da Rua da Barroca. Dizem-me que no ZDB o ambiente é artístico e revolucionário. Os posters colados na parede dão-lhe um toque único. Trata-se de um espaço antigo que foi recuperado. Grupos de mulheres dançam e sou rapidamente envolvida por esta atmosfera quente. Aqui não há constrangimentos. Ninguém olha de lado e deixo-me conduzir pela Marta e pelas suas amigas. Mal termina uma música pop e já estou a ser puxada rua abaixo. Levam-me ao bar Maria Caxuxa. «Vais sentir-te em casa», dizem-me. Em casa não diria. Mas é impossível ficar indiferente a este espaço. É moderno mas kitsch, trendy com peças vintage, as paredes estão cobertas de fotografias, desenhos e há cor por todo o lado. Não é frequentado apenas por mulheres. Nem sequer parecem lésbicas. «Sabes que nós não escolhemos os amigos pela sua orientação sexual», diz a Marta, com ironia.
 
Fim de noite junto ao Tejo
A noite passa a voar. São três da manhã e estou pronta para ir para casa. No entanto, quando vislumbro as luzes da discoteca Lux, percebo que o meu roteiro não terminou. «O Lux é gay-friendly?», pergunto. «Está mais próximo de hetero-friendly», responde a Marta entre risos. A reputação deste espaço é inquestionável e tornou-se a discoteca “it” de Lisboa. É arrojado e dinâmico. Aqui podemos ser quem quisermos. Sofisticados, alternativos, gays ou hetero. Percebo porque é um espaço de eleição para mulheres que se queiram libertar de preconceitos. É ao balcão do bar que conheço Maria. Tem 25 anos e está a estudar psicologia. «Aqui ninguém me aponta o dedo, há um reconhecimento mútuo entre lésbicas. Também tenho amigas heterossexuais que cá vêm. É um sítio onde estou à vontade para me envolver fisicamente com outras mulheres sem ter ninguém a olhar.» Termino a minha noite na varanda com vista sobre o rio Tejo. Quem diria que longe de homens também me iria divertir?
 
À porta fechada
A noite de sábado seria diferente. Depois de uma visita guiada pelas mãos de Marta, quis arriscar ir sozinha. Tinha alguns nomes de bares rabiscados num papel e fui à procura deles. Parei primeiro no Friend Bairro Alto, o oposto dos que tinha visitado na noite anterior. Os sons de disco e funk envolvem-nos e é impossível ficar quieta. É um espaço claramente gay, mas não só no feminino. O público é muito jovem. Vislumbro casais apaixonados, que se beijam de forma desinibida. Alguém me aconselha a procurar o 126 da Rua da Atalaia, mas avisa-me que tenho de tocar à campaínha. É assim que entro no Frágil, um bar-discoteca à porta fechada e com uma decoração eclética em tons de preto e roxo. Há quem converse na zona dos sofás, mas também há quem dance. Vejo beijos, muitos beijos. Estou num mundo à parte. Não há embaraços e, talvez por ser à porta fechada, a sensação de liberdade é imensa. Sigo viagem, à procura do Salto Alto.
 
Double income, no kids
Tinham-me dito que o Salto Alto é o espaço onde se encontram mulheres mais velhas. É elegante e sofisticado, mas pouco consigo ver porque está cheio de gente. Entendo claramente o conceito de mulheres «dink» (double income, no kids). Fico a conhecer a Rita, uma mulher elegante e bonita, membro da direcção da Associação ILGA. Revela-me os sítios onde vai com as mainhas e explica-me que procuram noites coloridas, sem segregação. Tanto podem jantar no Põe-te na Bicha, como no Orpheu ou no Pharmacia. Começam a noite no Bairru’s Bodega, passam pelo Agito, pelo Maria Lisboa, e acabam no Trumps ou no Lux. O Cais do Sodré também mexe com a noite lésbica. Gostam da Velha Senhora, das festas do Conga Club e, numa noite mais tranquila, assistem a uma peça de teatro da Casa Conveniente.
 
Espaços libertinos
Agradeço os conselhos à Rita e vou à procura do Trumps. O magote de gente na rua da Imprensa Nacional não me deixa enganar. Há pessoas de todas as idades, homens e mulheres. Lá dentro, o ambiente é muito mais libertino do que imaginava. Por ser um espaço exclusivamente gay, ninguém tem constrangimentos. Está a decorrer um strip masculino no palco e a atmosfera está carregada de erotismo. Vou, então, à procura do Maria Lisboa, um espaço idealizado para mulheres. Edite, gerente do espaço, está à porta e convida-me a entrar. A luz brilhante que emana lá dedentro permite vislumbrar um spot vistoso e bem decorado. As luzes rodopiam à minha volta, a música é contagiante e os corpos tocam-se sem pudor.
 
Regresso a casa
Entrei no carro e preparei-me para fazer a viagem até casa. Pensei nas mulheres que conheci e em todas as histórias que partilharam comigo. A diversão depende mais da companhia do que sítio onde estamos. Ir ao Purex ou ao Salto Alto é tão válido como ir aos bares «normais». O futuro quer-se sem discriminação. Lisboa está a tornar-se numa cidade que aposta no «pink money», o poder económico das lésbicas.
 
In Happy. Abril, por Helena Magalhães
 
O artigo faz também referência às FESTAS QUE AÍ VÊM, incluindo:
20 de abril: Festa «É pr’ámanhã» (ILGA e CheckpointLX), no Teatro do Bairro
30 de junho: Arraial Pride (ILGA), no Terreiro do Paço
 
 
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