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Posição editorial do PÚBLICO sobre o casamento levanta receios sobre equilíbrio informativo
2010-03-29

A controvérsia sobre o casamento homossexual é um tema sobre o qual o PÚBLICO decidiu adoptar uma posição clara. "O casamento entre pessoas do mesmo sexo é um direito que deve ser reconhecido por uma sociedade que defende a igualdade e rejeita a discriminação" - lia-se no editorial de 9 de Novembro de 2009, quando o tema aquecia o debate público, cerca de três meses antes de o Parlamento decidir nesse mesmo sentido, ao aprovar a lei que o Presidente da República entretanto submeteu à análise do Tribunal Constitucional.

Tratando-se de uma posição que não é consensual na nossa sociedade, é natural que esta opção da direcção do jornal tenha desagradado a uma parte dos seus leitores. Outros, pelo contrário, terão apreciado a clareza com que foi manifestada. O que a todos importará é que seja sempre salvaguardada a distinção clara entre opinião e informação, a qual, sendo indispensável em todas as matérias, será naturalmente sujeita, em casos como este, a um escrutínio mais apertado. 

Assim terá pensado o leitor Xavier Cortez, que - para "escrever sem que a emoção ganhe à razão" - deixou passar umas semanas sobre a "Manifestação pela família e pelo referendo" antes de criticar a cobertura do acontecimento pelo PÚBLICO. Essa manifestação, recorde-se, reuniu em Lisboa, no passado dia 20 de Fevereiro, milhares de pessoas em protesto contra a lei aprovada no Parlamento e em defesa de um referendo sobre o tema. 

Queixa-se este leitor de que, na edição desse dia, o jornal dedicou à manifestação "apenas uma pequena nota em cabeçalho", preenchendo depois duas páginas do Destaque com "um estudo que pretende provar que a família hoje já não é o que era, que hoje em dia é normal que os filhos nasçam fora do casamento", seguido de "uma reportagem com uma família em que a mãe se casou pela igreja e, dos três filhos, dois vivem em união conjugal e o terceiro vive com um parceiro do mesmo sexo", que pretenderia "provar" ser essa "uma família perfeitamente funcional, para não dizer moderna". Acrescenta que, na edição seguinte, a reportagem da manifestação referia em título que "um grupo de extrema-direita provocou um grupo de gays" [não é exacto, o verbo "provocar" não foi usado], assim privilegiando em seu entender "um fait-diverscompletamente estranho à manifestação". 

Sem pôr em causa a legitimidade da opção editorial assumida em Novembro, afirma na mensagem que me enviou (e que poderá ser lida na íntegra no meu blogue): "Não me parece é correcto que essa opção editorial possa originar um desvio ao Livro de Estilodo PÚBLICO que a anterior direcção aprovou (...). Um jornal não pode ser tendencioso".

Fui reler os textos citados pelo leitor, e concluí que os terá lido com alguma precipitação. Não é verdade que a referência à manifestação se limite a "uma pequena nota em cabeçalho". A primeira peça do Destaque, assinada pela jornalista Catarina Gomes, anuncia, logo a abrir, a sua realização e objectivos. Explica o que os organizadores designam por "família verdadeira" e dedica-se, depois, à análise dos dados disponíveis sobre a diversidade actual das formas de família, num trabalho oportuno e equilibrado, que permite tirar conclusões como a que se lê no subtítulo: "O casal tradicional com filhos continua a ser o perfil dominante da família portuguesa. Mas muito está a mudar: um terço dos bebés já nasce fora do casamento".

"O texto a que o leitor se refere teve como pretexto a manifestação", mas o seu objectivo "foi fazer um balanço do que é a família portuguesa hoje", esclarece a sua autora. No meu entender, essa foi uma boa opção jornalística, contribuindo para o esclarecimento público de um tema que dominava a actualidade, e perfeitamente compatível com as regras editoriais e a personalidade deste jornal. E que foi bem complementada, nessa edição, por uma impressiva reportagem de Alexandra Lucas Coelho e Pedro Cunha, em que se descreve como ligações "tradicionais" e "não tradicionais" podem conviver bem numa mesma família.

Registe-se que Catarina Gomes já tivera oportunidade de referir com algum detalhe os argumentos dos organizadores da manifestação, numa notícia publicada três dias antes na edição on-line, mas que só teve (e isso, sim, parece-me contestável), um eco mínimo no jornal do dia seguinte.

Reli também a notícia da edição de 21 de Fevereiro, assinada pela jornalista Maria Lopes. Confirmei que privilegia de facto, no título, o incidente que opôs um grupo de activistas da extrema-direita a um outro de defensores do casamento homossexual, obrigando à intervenção da polícia. Mas considero que essa foi uma opção compreensível (o olhar jornalístico persegue naturalmente, como diz Maria Lopes, a "novidade", o "inusitado"), e que não pôs em causa um relato equilibrado da manifestação, no qual ficam claras as motivações, quer da maioria que ali gritava "Casamento é homem e mulher!", quer dos que respondiam "Eu amo quem quiser!". 

Não descortino, por isso, qualquer desvio ao Livro de Estilo do jornal na cobertura deste acontecimento. A manifestação de 20 de Fevereiro foi um acontecimento relevante e o PÚBLICO não se limitou a dar voz aos seus organizadores e a descrevê-la de forma burocrática. Ouviu opiniões diversas, problematizou e aprofundou o tema, descreveu com vivacidade o que se passou na rua. Fez, em suma, o que lhe competia.

Ainda que respeitada, como penso que foi, a diferença entre informação e opinião, poderá a posição assumida em Novembro pelo jornal sobre o casamento homossexual ter influenciado ou estar a influenciar negativamente a abertura das suas páginas à expressão plural das posições divergentes que sobre esta questão se confrontam na sociedade? A esse respeito, tem a palavra o director adjunto, Nuno Pacheco:

"Esta posição não impediu (...) que, nos dias seguintes, o PÚBLICO não tenha dado a devida cobertura não apenas aos movimentos e pessoas que se manifestavam contra o casamento gay, como também aos que, aceitando-o com limites, defendiam o referendo e não a simples aprovação pelos deputados no Parlamento. Isso reflectiu-se, por exemplo, na publicação, sem reservas, de uma série de artigos polémicos de opositores ao casamento gay e apoiantes do referendo, tais como António Pinheiro Torres (14/11/2009, 24/2/2010), José Ribeiro e Castro (16/11/2009), Isilda Pegado (18/11/2009, 7/12/2009), Gonçalo Portocarrero de Almada (13/12/2009, 18/1/2010), Mário Pinto (16/12/2009), Pedro Vassalo (8/1/2010), J. J. Brandão Ferreira (1/3/2010). O PÚBLICO foi talvez o jornal que mais artigos com tais posições aceitou, apesar da sua expressa posição editorial em contrário. É isto que, para nós, significa liberdade e um debate aberto e sem preconceitos sobre o tema".

Parece-me esclarecedor e nada tenho a acrescentar. Gostaria apenas de sublinhar um ponto: ao assumir, em nome dos valores que então citou, uma posição como a que entendeu dever tomar na querela do casamento homossexual, o PÚBLICO poderá eventualmente perder a simpatia de leitores para quem essa posição choca com as suas próprias convicções. Esse é o lado da emoção. Mas, se mantiver a clareza da distinção entre factos e opiniões, se informar com rigor e se as suas páginas continuarem abertas, como se deseja, à expressão plural das ideias, não perderá certamente o seu respeito. Esse é o lado da razão.

Emoção, razão e conceitos de família

Por José Queirós, 28 Março 2010

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