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Mais de 70 pessoas acompanhadas em dois anos para mudar de sexo
2013-08-28
Mais de 70 pessoas acompanhadas em dois anos para mudar de sexo

Têm entre 18 e 60 anos e vêm de todo o país. A maioria está "perfeitamente enquadrada na sociedade e tem companheiros". A Unidade Reconstrutiva Genito-Urinária e Sexual (URGUS), no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, nasceu em Setembro de 2011 depois de o único médico que até então fazia cirurgias de reatribuição de sexo no Serviço Nacional de Saúde (SNS) se ter reformado. Balanço de actividade? O serviço acompanhou até agora 68 transexuais. São pessoas que nasceram com um corpo com o qual não se identificam.

Em dois anos de vida, 26 estão em avaliação psicológica, 15 já iniciaram o processo (terapia hormonal) para a reatribuição de sexo e 25 passaram à fase das cirurgias, diz Celso Cruzeiro, o médico cirurgião plástico que dirige a URGUS. Apenas em duas situações "a mudança de sexo não foi recomendada pelo elevado risco trombótico".

Quase sempre estamos a falar de homens e mulheres muito acompanhados pelas famílias - "São pessoas que tiveram infâncias terríveis, que sofreram, que foram frequentemente vítimas de bullying nas escolas... As famílias compreendem a necessidade da intervenção."

Um transexual é alguém que nasce com um corpo de um sexo e com um cérebro de um género contrário. Ou seja, nasce com corpo de homem mas com cérebro de mulher ou vice-versa, como descreve João Décio Ferreira, que, durante anos, fez tratamentos cirúrgicos de pessoas com diagnóstico de Perturbação de Identidade de Género (transexualidade) no Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Actualmente fá-los no privado, no Hospital de Jesus.

Não lhe passou, por isso, despercebido que, na semana passada, Bradley Manning, o soldado norte-americano de 25 anos condenado a 35 anos de cadeia por passar documentos secretos à Wikileaks, tivesse anunciado ao mundo que iria passar a viver como mulher. "Face ao que sinto e senti desde a infância, quero começar um tratamento hormonal logo que possível", declarou Manning num depoimento escrito. Explicou ainda que o passo seguinte será a consumação da mudança de sexo.

"Se fosse em Portugal, só poderia acontecer com um diagnóstico feito por uma equipa multidisciplinar", explica Décio Ferreira. "Ou seja, psicólogo, psiquiatra, endocrinologista, sexólogo... este diagnóstico, por sua vez, tem de ser confirmado por uma segunda equipa. Se isso acontecer, até eu o opero se ele quiser", continua o cirurgião que tem sido convidado por pares de vários países a mostrar a sua técnica. No Hospital de Jesus realizou, em Dezembro do ano passado, uma mudança do sexo masculino para o feminino, este ano fez mais duas intervenções e até ao final do ano tem planeadas mais três.

Não é um processo rápido. "O tempo varia. Existem casos sob observação e orientação desde a infância enquanto outros apenas na vida adulta despertam para este problema de saúde", diz Celso Cruzeiro. Depois do pedido expresso e da primeira observação pela psiquiatria podem passar dois, três anos. Até porque, "antes de assumir a mudança, é feita uma prova de vida em que o indivíduo vive, pelo período de um ano, com o género que vai adoptar".

A terapia hormonal é a segunda fase do tratamento. E só depois - não sem a Ordem dos Médicos dar luz verde - os cirurgiões operam.

O número, tipo e complexidade das cirurgias varia de caso para caso. Uma pessoa que nasceu "erradamente" com o sexo feminino, por exemplo, poderá querer fazer uma mastectomia (remoção das mamas), uma histerectomia (remoção do útero), uma faloplastia (formação de um pénis com tecidos de outras zonas do corpo). Mas há doentes que optam por não realizar, por exemplo, a faloplastia.

Inicialmente, apareciam mais pessoas que queriam mudar do sexo feminino para o masculino - Portugal sempre foi considerado peculiar, com cerca de três cirurgias de mudança de feminino para masculino para cada uma de masculino para feminino, o que é o contrário da tendência internacional. "Mas agora os números estão mais aproximados."

Todos as intervenções feitas na URGUS são comparticipadas pelo SNS. No privado, é bem mais caro. Mas Décio Ferreira garante que no hospital onde opera o que se cobra é, muitas vezes, metade ou menos do que o preço de tabela, porque as pessoas têm situações económicas difíceis. "São pessoas que me procuram. Algumas não gostam das técnicas cirúrgicas utilizadas em Coimbra." O cirurgião faz ainda questão de deixar uma crítica ao Governo. Há dois anos, o Hospital de Jesus entregou ao Ministério da Saúde uma carta onde propunha "um protocolo para a realização destas cirurgias através do SNS". Nunca teve resposta.

A opção do Governo, depois do fim das cirurgias em Santa Maria, foi centralizar os casos em Coimbra.
 

in Público, 28 agosto 2013, por Andreia Sanches

 
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