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Eles são católicos, homossexuais e praticam
2010-04-16
imagem de ceticismo.net

1. Alentejo

O quarto de José António Almeida dá para a fachada da igreja matriz. É isto "numa vila da província", diz um dos seus poemas. Uma vila do interior alentejano cujo nome prefere calar. Mas aqui estamos, num começo de tarde, no começo da Primavera. Lá fora cheira a pólenes, e a luz aquece, quase cega. Cá dentro cheira a tabaco, ao óleo de ícones e santos, e a sombra quase arrepia.

- Como vê, é o quarto de um católico - diz José António.

Ao lado da janela, a reprodução de um ícone bizantino e uma imagem de Santa Teresa do Menino Jesus. Ao lado da cama, uma pintura com um crucifixo espetado num coração bastante carnal, com nervos e válvulas. 

- Esta imagem do Sagrado Coração foi proibida algum tempo por ser um órgão anatómico.

Sim, é o quarto de um católico, mas também vemos que é o quarto de um poeta. Do outro lado da cama está emoldurada uma carta de Vieira da Silva escrita em 1983: "Meu querido poeta..." De passagem por Paris, José António quis conhecê-la, deixou-lhe poemas e um bilhete, ela respondeu com esta folha. 

O que talvez não se veja no quarto, mas se vê no escritório, é que além de católico e poeta, este habitante da casa é homossexual. Entre ícones bizantinos, lá estão "ícones" homoeróticos como Kavafis, o poeta de Alexandria que tanto escreveu sobre o amor a rapazes, ou colagens fotográficas com torsos musculados. 

E com estas "três identidades" - poeta, católico e homossexual - se apresenta José António Almeida no livro O Casamento Sempre Foi Gay e Nunca Triste (& etc, 2009). 

Tanto quanto sabemos, é o primeiro (e até agora único) livro que um português escreve sobre a sua condição de católico e homossexual praticante. Fé e sexualidade apareciam em obras anteriores deste poeta, mas só aqui são tratadas em relação uma com a outra, primeiro em ensaio, depois em poemas.

E a dedicatória abre uma janela para algo invisível na sociedade portuguesa, com datas e lugares: "Ao pequeno grupo de católicos com quem me reuni na Capela do Rato e na Capela dos Fiéis de Deus para rezar e reflectir sobre a nossa condição homossexual de 18 de Outubro de 2003 a 22 de Março de 2008." 

Ou seja, ao longo de quase cinco anos, no centro de Lisboa, católicos praticantes organizaram-se para reflectir sobre uma parte intrínseca da sua vida que a Igreja Católica considera um "mal moral intrínseco" ou um "comportamento intrinsecamente desordenado". 

Segundo a doutrina actual, os católicos homossexuais têm direito a ser acolhidos mas são convidados à castidade.

Entretanto, o debate sobre direitos dos homossexuais, nomeadamente o casamento, está a multiplicar os sinais de católicos que buscam uma conciliação entre a sua prática religiosa e a sua prática homossexual. 

Além do livro de José António Almeida e do grupo que se reuniu na Capela do Rato, a Pública encontrou trabalhos académicos, blogues e sítios online, grupos só de leigos e grupos que se reúnem com acompanhamento não-oficial de padres. 

E não foi difícil convencer católicos homossexuais a falar. Quando se soube da reportagem, alguns contactos partiram dos protagonistas. Todos os encontros foram pessoais, às vezes repetidos. 

Isto pode anunciar a dinâmica de um movimento. Mas ainda será sobretudo o impulso de quem esteve calado. E o facto de quase todos não mostrarem a cara expõe a dificuldade que tudo ainda é. 

Homens e mulheres, catequistas e ex-catequistas, ex-seminaristas e ex-monges, entre os que aqui vão falar há quem se tenha sentido a enlouquecer. 

"Cada criatura humana aspira a escrever a sua própria história", escreve José António Almeida.

Nascido em Lisboa há 50 anos, mas com raízes no Alentejo, este poeta começou a escrever a sua história antes mesmo de falar dela. 

- A família soube com os versos. Nunca escondi, nunca menti, as pessoas é que muitas vezes não querem ver os sinais. Depois há um momento em que temos necessidade de pôr preto no branco.

Mas passaram-se anos até encontrar os católicos homossexuais que se reuniram na Capela do Rato. Esse grupo nasce inspirado pelo padre italiano Domenico Pezzini, que veio à Igreja de Santa Isabel, Lisboa, em Setembro de 2003.

- O grupo começou em Outubro - recorda José António. - Soube por um amigo, desloquei-me a Lisboa e participei. Era uma vez por mês, numa salinha contígua à capela. O dia variava. Haveria uma média de seis, sete, pessoas, às vezes 10, 12.

Só homens? 

- Houve uma altura em que apareceu uma rapariga. De resto, eram homens, mas não estava fechado a mulheres. E estava aberto a não-crentes. Recordo-me de lá ter estado um padre, mas eram reuniões de leigos, organizadas por nós. Havia uma ligação ao padre José Manuel, que tinha permitido aquelas reuniões, mas ele não aparecia. Foi muito corajoso.

Um dos membros do grupo guardava a chave da capela. Eram autónomos e discretos, mas não clandestinos: 

- A hierarquia tinha conhecimento.

Este grupo desfez-se, conta o poeta, depois de uma reportagem no Expresso que não precisava local nem datas, e dizia que todos queriam anonimato. Mas José António estava pronto a ser fotografado, e escreveu isso numa carta ao jornal, que não a publicou por não a considerar direito de resposta. 

Vem incluída em O Casamento Sempre Foi Gay e Nunca Triste

Quanto à fotografia, vamos a ela. No meio do Alentejo, agora, de caras.

2. Igreja de Santa Isabel

Noite de Domingo de Ramos. O largo da Igreja de Santa Isabel parece uma festa. Mas é só o fim da missa celebrada pelos padres José Manuel Pereira de Almeida e José Tolentino Mendonça. Lua quase cheia e dezenas de jovens a conversarem. Vista daqui, a Igreja Católica nem parece envelhecida.

- A presença de universitários é enorme - diz Tolentino Mendonça, que já tirou os paramentos e agora atravessa a comunidade, cumprimentos, despedidas, jantares combinados. José Manuel Pereira de Almeida aparece já de blazer, também, e os dois guiam o caminho para a casa paroquial, onde nos sentaremos junto a uma pintura de Ilda David".

Como a doutrina católica considera a homossexualidade um mal, os sacerdotes são levados a reprovar a sua prática. Por isso, os grupos de homossexuais dentro da Igreja que debatem o assunto se têm mantido discretos. 

- Eu já era pároco em Santa Isabel - conta José Manuel P. de Almeida. - E convidámos o padre Domenico Pezzini. 

Estudioso de místicos medievais e professor de literatura inglesa, Pezzini fora nomeado pelo então arcebispo de Milão para dar "particular atenção" aos homossexuais. Era "o motor" de um movimento chamado La Fonte que procurava concretizar a "opção preferencial" da Igreja "pelos pobres", "pelos marginalizados, pelos excluídos", "em tantas circunstâncias, os últimos", escreve José Manuel P. de Almeida no prefácio ao livro de Pezzini As Mãos do Oleiro (Paulinas, 2009).

Os retiros e encontros de La Fonte atraem gente de todo o mundo, e o pároco de Santa Isabel sabia dos efeitos. Assim, recebeu Pezzini aqui, a 16 de Setembro de 2003.

- Organizámos um encontro com um título discreto: "Uma experiência pastoral na cidade de Milão". Ele chega e diz: "A experiência pastoral é esta: acompanhar pessoas homossexuais." Na sequência do encontro, houve pessoas que me pediram um espaço para uma vez por mês rezarem e perceberem o que entre nós podia ser feito, poderem olhar para a sua condição sem se mentirem.

Como o movimento italiano se chama La Fonte, esse grupo decidiu chamar-se Riacho. Fizeram um blogue (ainda activo: riacho.blogs.sapo.pt) e o padre José Manuel cedeu-lhes um espaço na Capela do Rato.

- Era uma reunião de quem estava, eu nunca estive. Os leigos são maduros o suficiente para darem orientação a si próprios. Eu ia fazendo a coordenação com um deles. Quando deixei a Capela do Rato, continuaram mais um tempo, mas depois passaram a encontrar-se noutro lado.

O patriarca de Lisboa sabia?

- O Senhor Patriarca estava ao corrente da minha atenção pastoral, sem detalhe. Como agora acontece com outros grupos que têm acompanhamento recomendado, para que as pessoas não se sintam marginalizadas. 

No prefácio ao livro de Pezzini, o padre José Manuel diz: "Tenho também notícia de que, autonomamente, de forma discreta, algumas pessoas que se reconhecem como homossexuais têm procurado viver e aprofundar, em grupo, a experiência de fé em Jesus Cristo. Experiência exigente, séria, verdadeira."

Mas que se mantém discreta e alcança poucos, quando esta não é uma história de poucos. Os que a contam dizem que é uma história de muitos, e sentem que a Igreja Católica não tem resposta para eles. Uma igreja ou outra podem responder a alguns. Falta a resposta da Igreja para todos. 

3. Chiado

P. quase morreu disto. Durante 33 anos não disse a ninguém que era homossexual. Tentou não ser. Tentou ser padre. Tentou ter uma namorada. 

- Até que rebentou tudo da pior maneira. Tive uma vida antes e outra depois.

Agora está com 40 anos, a tentar viver a segunda vida "em verdade". Foi ele quem se predispôs para este encontro. 

Sentado num café do Chiado, Lisboa, falará com despojamento, convicto de que é preciso. Por ele, mostrava a cara. Hesita ainda porque recolhe fundos para solidariedade e não quer prejudicar a instituição.

- Tive uma educação católica conservadora. Depois comecei a meter-me em grupos católicos de acção social e criei esta instituição com amigos. Trabalhávamos em bairros sociais. Isso, e uma experiência espiritual forte, fez-me pensar que a minha vida tinha de passar por ser padre. 

Não sabia que gostava de homens?

- Soube desde sempre, mas não falava disso com ninguém. Tinha esperança de dar a volta à coisa, de me tornar heterossexual. 

O ambiente familiar, com distância entre pais e filhos e entre irmãos, empurrava-o para isso.

- Os comentários homofóbicos predominavam. A homossexualidade era tratada como aberração, uma coisa nojenta. Eu julgava que era o único, não sabia de mais ninguém. E as piadas homofóbicas eram minhas também, para desviar qualquer suspeita.

O estudo de Teologia não ajudou.

- Aposta-se muito na moral sexual, parece que é mais importante do que as outras. Havia sempre em mim uma tensão quanto à verdade com que podia estar no seminário. Mesmo em castidade, achava o próprio desejo homossexual antinatura. 

E assim foi até aos 33 anos. 

- É um processo tenebroso. De uma violência brutal para connosco próprios. Estamos quase metade da vida a reprimir a identidade e com pânico de que se saiba. Quando entrei no seminário, foi uma questão que me começou a perturbar cada vez mais, por não me sentir em verdade. Só a possibilidade de a verbalizar causava-me uma ansiedade indizível. 

No fim do primeiro ano fez um retiro com jesuítas.

- E quando fui, a questão não me saía da cabeça. Tive insónias dias seguidos para conseguir verbalizá-la com o padre. A resposta foi a pior possível, não me senti minimamente acolhido. 

Que ouviu?

- Que estava a fazer uma tempestade grande demais e tinha de ir falar com o director espiritual do seminário. Depois daquela conversa é que não dormi mais. 

Quando o retiro acabou, foi falar com o director espiritual. 

- Disse-me que naquele momento é que eu estava em verdade para entrar no seminário. Mas com o tempo, a homossexualidade era uma questão de tal maneira dolorosa que mesmo perante ele fui dando a coisa como superada.

Até se tornar insustentável.

- No começo do quinto ano, saí. Não entrei por razões ligadas à homossexualidade, mas saí por isso. 

Como reagiram os pais?

- Ficaram um pouco desiludidos. O meu pai principalmente, porque gostava de exibir o filho seminarista. 

Mas P. já estava com 28 anos. 

Vida sexual?

- Inexistente. Reduzia-se à masturbação, que para mim era um pecado grave. Mas eu também não me conseguia confessar ao meu director espiritual. Vinha aqui à Igreja do Loreto, que eram padres italianos e ninguém me conhecia. 

Segue-se um túnel de anos.

- Eu era um católico fervoroso a lutar contra a homossexualidade. Comecei a ter experiências homossexuais vividas com grande sentimento de culpa. Tinha um one night stand e ficava dias sem dormir, ia-me confessar, jurava que nunca mais. Até nova explosão. Ainda tive uma namorada, num esforço derradeiro para ser heterossexual. Até que, depois de terminar esse namoro, comecei a falar. 

Com um amigo, também católico. E aproximaram-se.

- Aí, um amor com uma pessoa do mesmo sexo começou a tornar-se possível. Eu estava em carne-viva. Com uma sensibilidade exacerbada e ao mesmo tempo muito feliz. Noites inteiras em que só me corriam lágrimas pela cara, descompressão pura e dura. Fomo-nos aproximando até que passámos à parte física. Eu tinha medo, mas correu bem. E dois dias depois ele telefona a acabar comigo. Foi nessa altura que afundei. Rebentei por todos os lados, em ansiedade extrema. Emagreci 12 quilos num mês. Deixei de comer, de trabalhar, de conseguir estar sozinho e de conseguir estar acompanhado. Toda a gente se apercebeu. Fui internado numa clínica para casos de depressão. 

Esteve lá três semanas. Tinha 33 anos e ainda não contara aos pais, aos irmãos, aos amigos.

- Quando saí, afastei-me de tudo. Não conseguia estar com amigos mais antigos, repugnava-me. Cortei com tudo o que era religioso. E desde então estou num processo de reconstrução. 

Começou por dizer à psiquiatra: "Não sei viver com isto, ser homossexual." 

- Tem sido um processo lento, aprender a integrar. Comecei a descobrir outros mundos, a ir ao Bairro Alto, a fazer novos amigos, a falar com padres que me ouviam de outra maneira.

A recusar padres como aquele que o ia visitar à clínica, obcecado com a homossexualidade.

- Dizia-me: "Quando estiveres bem, vais para os Estados Unidos, tratas a homossexualidade e depois trazes o tratamento para cá." E depois da clínica vinha-me com estas conversas: "Sabes que os homossexuais não entram no Reino dos Céus." Até que lhe disse: "Consigo não quero falar mais, não me faz bem." Comecei a falar com um padre jesuíta que me ajudou imenso. E depois com outro padre de quem fiquei amigo.

Tinha já 37 anos. E só então contou aos pais.

- Foi uma nova crise. Fizeram daquilo um problema deles: "Coitados de nós que temos um filho homossexual." Diziam que eu continuava a ser filho deles, mas se tivesse alguém não queriam saber. Não queriam que os meus sobrinhos soubessem. Nunca pensaram no que eu tinha sofrido. E com os meus irmãos foi semelhante. Desde então, a questão é como se não existisse. Estou com eles regularmente, mas é como se tivesse duas vidas. 

E os amigos?

- Nenhum deixou de me falar, mas para alguns é uma aceitação, e eu quero que gostem de mim sem nada de condescendente. 

Só cinco anos depois voltou a ter outro namoro. E entretanto foi conhecendo cada vez mais cristãos homossexuais.

- Via muitas pessoas que não sabiam conciliar as duas coisas. Há muita homossexualidade entre cristãos, e muita repressão como a minha. Isso é que é assustador. A educação que os meus irmãos dão aos filhos é idêntica à que os meus pais deram. Comentários já homofóbicos, que eu contrario na hora.

Então, há dois anos, empenhou-se na fundação de um grupo de católicos homossexuais orientado por um padre. 

- Todos temos vivências e sofrimentos que se tocam. Há uma história de repressão, um conflito de culpa e pecado, uma tentativa de ser outra coisa. Ajudamos a desfazer nós, a partilhar questões, e paralelamente é um grupo que reza, que nos ajuda a manter a dimensão espiritual. 

O padre que os orienta não quer falar sobre isso na reportagem, para não pôr em risco os encontros. A visão do grupo não coincide exactamente com a doutrina da Igreja. Tal como outros membros, P. não quer ser abstinente. Mais, defende a legalização de uma prática que a Igreja condena.

- É claro que sou a favor do casamento homossexual. 

Que espera então desta Igreja que é a sua, mas não o aceita na prática?

- Tem de voltar às suas origens, à pessoa de Jesus Cristo. Tem de deixar de ser a Igreja da moral para ser a Igreja do amor. Uma Igreja que está agarrada ao supérfluo e não ao essencial não pode ajudar o ser humano. Está tão centrada na norma que se esquece das pessoas. Jesus olhou para cada um como um caminho a ser construído. A perfeição está no amor e não na moral. A perfeição não é uma família heterossexual com filhos. Quando há amor, uma relação hetero é boa e uma relação homo é boa. 

E tentar assim conciliar a prática católica e a prática homossexual só o tornou mais crente.

- Desde que fiz este corte, cada vez mais me revejo na figura de Cristo. E é tão radical aquilo que Ele disse, que a maior parte das pessoas não consegue lá chegar. Mas encontro muitos cristãos hoje que procuram a verdade sobre si próprios, como pessoas capazes de amar. 

O oposto disto é a repressão, o encobrimento, o que deveria fazer a Igreja pensar, sobretudo agora, com tantas acusações de pedofilia.

- A repressão leva à doença.

4. Bairro Alto

Um dos católicos homossexuais que P. levou para o grupo foi A., este rapaz com olhos azul-violeta e dedos de pianista que podia estar numa pintura.

Também pinta, e estudou Belas-Artes, mas agora estuda Música no Conservatório de Lisboa. Por isso é que nos encontramos aqui, num café da Rua da Rosa gay friendly, como ele disse, quando telefonou à Pública, por sua iniciativa.

Nasceu há 33 anos nos arredores de Lisboa, numa família de católicos praticantes.

- Tive catequese, grupo de jovens, participei num grupo missionário, comecei a cantar no coro da igreja. 

Depois, no primeiro ano da faculdade, visitou a comunidade ecuménica cristã de Taizé, em França. 

- Voltei no ano a seguir, fiz silêncio, voltei na Páscoa. Acho que tem a ver com a abertura: centramos no que nos une e não no que nos divide. E a estética, que para mim sempre foi uma forma de comunicação com Deus: a liturgia é de uma beleza simples, a oração é centrada nos cânticos e no silêncio. Na nossa tradição há pouco espaço para o silêncio, e o silêncio é abrir um poço de ar para a oração. 

Assim inspirado, A. decidiu viver um ano num mosteiro. 

- Foi tão bom que decidi entrar na congregação. 

Tinha 21 anos. Passou a ser noviço, ainda antes dos votos de pobreza, obediência e castidade. 

- Mas na prática já os cumpria. Era virgem. Não sabia que era homossexual. E não sentia necessidade. Hoje, a gente acha que quem não tem sexo não é completo, mas eu vivia bem o meu celibato. Sempre tive um lado espiritual desenvolvido. Uma pessoa não fica mutilada, continua a sentir pulsões, mas se nos sentimos bem não é um problema.

Tudo corria tão bem que o mosteiro o enviou para um ano de missão num país muçulmano da Ásia, fora da capital. 

- A presença dos frades é discreta, a intenção não é evangelizar, é de apoio a mulheres e deficientes. Foi um ano extremamente difícil e o mais enriquecedor.

Porquê difícil?

- O clima é muito húmido, não pára de chover, às vezes parece que não se consegue respirar. Os frades vivem numa situação muito pobre. Tive muitas disenterias. E havia problemas com o visto.

Tinha de atravessar a fronteira para os resolver.

- Mas gostei muito do trabalho. Foi na altura do ataque às Torres Gémeas e sentia-se muita pressão. Aquela sociedade é dura com os estrangeiros, mas as pessoas com quem eu trabalhava eram cinco estrelas.

Que fazia?

- Além de aprender a língua, trabalhei num atelier de artesanato criado pelos frades para mulheres com deficiência. E estava muito com crianças deficientes. Só extrair essa miséria escondida era um pequeno trabalho de mudança.

Tudo isto acabou de forma abrupta.

- Vim cá a um casamento e descobri que estava com uma doença respiratória. Passei nove meses em tratamentos, o que me levou a repensar tudo. Acabei por ficar. 

Não se sentia com forças para voltar à missão, e portanto não fazia sentido voltar ao mosteiro.

- O meu regresso foi quase uma vocação interrompida, um acidente. De repente, estava cá, e tive dificuldade em me reintegrar. 

Entregou-se à arte. Começou a dar aulas de Desenho e a posar como modelo em Belas-Artes. E teve uma namorada.

- Era uma amiga de há muito. Tenho mais facilidade num amor para muita gente do que concentrado numa pessoa, então foi importante. Mas ela queria estabilidade, formar família. Falámos de filhos, de adoptar, mas eu não gostava de projectar as coisas.

A atracção por homens não aparecera?

- Estava enterrada. Eu era muito rápido a mandar isso para o fundo. Agora olhando para trás, com uns anos de psicoterapia, vejo que na adolescência já sentia atracção por homens, mas não me permitia isso. Só bastante tempo depois de acabar com a minha amiga comecei a interpretar sinais em mim. 

Não foi por isso que iniciou a psicoterapia, mas a psicoterapia fê-lo falar.

- Eu pensava numa bissexualidade, mas era construção. Reconheço beleza numa mulher, como num edifício ou num homem, mas não tenho atracção. Na psicoterapia, foi um tema que me deu muita luta. Comecei a perceber que não era um erro, que não podia ser algo que condenasse em mim porque não acredito num Deus que diz: "Gostas de outros homens, mas tens de viver a tua vida como se não gostasses." Não acredito num Deus que joga, acredito num Deus que ama desmesuradamente, e foi por isso que consegui reconciliar-me com esta circunstância, que não é qualidade nem defeito. Mas ainda hoje isto me faz tremer, tenho calafrios, é uma descoberta sofrida que vai contra os estereótipos que temos, aquilo que desejávamos ter, se calhar. 

Ser heterossexual seria mais fácil.

- Se pudéssemos escolher, a maioria de nós provavelmente não agradeceria ser homossexual. Só depois de termos feito muitas pazes é que podemos agradecer a Deus sermos assim. Por isso, fico muito zangado quando falam em escolha. Mas não quero que ninguém fique com pena. Quero chegar a um ponto em que agradeço. Estou a gostar mais de mim do que já gostei. 

Entretanto, teve as primeiras relações homossexuais.

- Experiências com pessoas que já conhecia. Fui conhecendo sítios nocturnos, mas nunca me revi nesse ambiente de engate. E abri-me gradualmente com os amigos novos, do meio artístico. Estar com naturalidade, comentar se passa um rapaz giro: "Epá, que giro." Isso é libertador. 

Esgotado o tempo, ainda não chegámos à conversa de A. com os pais, ou com o irmão, que é padre.

Três dias depois, novo encontro, com novidades:

- Desde a nossa conversa criei um blogue. Não posso estar sempre à espera que seja a Igreja a vir ao meu encontro. Chama-se moradasdedeus.blogspot.com. É para cristãos homossexuais. Mas não quero que seja um campo de batalha, não é um Prós & Contras. É para tentar chegar à solidão das pessoas.

Um dos primeiros posts fala d"As Mãos do Oleiro, o tal livro de Pezzini, para as famílias com homossexuais. A. leu-o antes de contar aos pais. Mas primeiro contou à tia, com quem vive.

- No ano passado apaixonei-me e estive seis meses numa relação. Foi nessa altura que contei à minha tia. Ela aparentemente aceitou bem, mas depois houve um recuar. Diz que me aceita mas não tem de aceitar as pessoas com quem estou. 

Entretanto, A. pôs termo à relação e decidiu contar aos pais.

- Disse-lhes que tinha chegado a um ponto de mim que não conhecia e que tinha recusado isso inicialmente. Que gostava que o assunto não ficasse como tabu e que gostava muito deles. O meu pai mostrou-se muito carinhoso e perguntou se eu estava à espera que deixassem de gostar de mim. A minha mãe disse que compreendia que existissem pessoas assim, só não compreendia que tivessem de ir para a rua. Eu respondi que iam para a rua como as mulheres foram, exigir direitos básicos. Depois a minha mãe disse-me que eu era o filho dela, e era um filho extraordinário. Foi muito bom, senti-me acolhido. Eu achava que a visão deles sobre mim era diferente. 

E o irmão padre?

- Foi a conversa mais complicada, antes de falar com os meus pais. Percebi que ele já sabia, porque a minha tia tinha desabafado com ele. Veio com os argumentos oficiais da Igreja: "Então tens de ser coerente, não podes comungar." Não voltámos a tocar no assunto, e eu senti um afastamento grande. Ele está fechado, tipo muro, não há um sorriso. Espero que não seja definitivo, mas não posso fazer esse trabalho por ele. 

Quando P. lhe falou no grupo de católicos homossexuais, A. começou a ir às reuniões. 

- Primeiro, era sempre em casa das pessoas, rodava entre casas. Ultimamente, as orações têm sido numa capela. 

Têm duas reuniões por mês. Numa rezam, noutra falam. Experimentaram várias fórmulas, por exemplo, debater um livro como o Diário de Hetty Hillesum. 

- Mas não funcionou porque as pessoas têm ritmos diferentes. Agora cada um traz aquilo que quer partilhar. E numa segunda fase pega-se em algo e fala-se disso em especial.

Já discutiram o casamento.

- Deve ser uma possibilidade para quem quiser. Não sei se casaria, mas se encontrasse alguém com quem quisesse partilhar a vida, por que não? Acho que é uma hipocrisia aquela manifestação em que se viam freiras ao pé de pessoas do PNR. Choca-me como isso pode coabitar. A igreja às vezes peca por omissão, de tão cautelosa que quer ser. Nunca ouvi um padre a falar de os cristãos poderem ser associados aos partidos extremistas em que de facto há discriminação. 

Também defende que os homossexuais possam adoptar. E não vê porque é que a família heterossexual será um modelo.

- Há muitas famílias disfuncionais, muita violência entre pais e filhos, muita traição, muitas relações de fachada, muitas vidas duplas. 

5. Graça

E as mulheres? 

Quando a Pública falou com a ILGA (Intervenção Lésbica, Gay, Bissexual e Transgénero), e a dirigente Sara Martinho fez circular a mensagem, a primeira mulher que se dispôs a falar foi Ana Oliveira. 

Aqui está ela, agora que os sinos da Igreja da Graça tocam as seis da tarde. O colégio onde dá aulas é nos arredores de Lisboa, mas hoje tinha compromissos na Graça. 

E nem de propósito, num miradouro que se chama Sophia de Mello Breyner Andresen, o que Ana traz como epígrafe do trabalho Homossexualidade e Igreja Católica (Curso de Espiritualidade da Universidade Católica, 2009) é um poema de Sophia que começa assim: "Escuto mas não sei / Se o que oiço é silêncio / Ou deus."

Nesta síntese académica, Ana diz que a "proposta oficial da Igreja Católica é clara: acolha-se o pecador, condenando-se o pecado", o que remete o homossexual "para um celibato "secular"", "ou para um estado permanente de culpa grave, no caso de expressar sexualmente a afectividade que lhe é natural". Esta proposta "tem sido considerada desumana e impraticável por inúmeras pessoas, que acabam por resolver o conflito interno afastando-se da Igreja". Noutros casos, "a caracterização patológica da homossexualidade pode contribuir para a sua vivência patológica".

O que Ana propõe é "explorar a conciliação entre essas duas vivências, a de pessoa homossexual e a de pessoa católica". Como? Partindo do princípio de que "a homossexualidade pode não ser um problema de ética sexual, mas antes "o surgimento de uma verdade antropológica acerca de uma variante regular, normal e não-patológica da condição humana"." 

E a razão por que está aqui, a tiritar estoicamente ao vento da Graça, é a mesma que a levou a fazer o trabalho: é católica e homossexual praticante.

- Tenho um pé em cada mundo. Já se cruzam, mas eu quero contribuir para uma sobreposição.

Camisola preta, jeans, cara lavada, 36 anos, vem de uma família católica não-praticante com profissões liberais. Foi baptizada e nada mais, até entrar na Universidade Católica, aos 18 anos. 

- Aí descobri o trabalho dos grupos de acção social e entusiasmei-me. Senti-me chamada. 

De tal maneira que passou dois anos como voluntária fora de Portugal. O que lhe deu o gosto pela vida em comunidade, mas também a ajudou a saber quem era.

- A descoberta da fé fez-me procurar o mais verdadeiro em mim, e foi o que abriu a porta para verbalizar para mim própria que me tinha apaixonado por outra rapariga. Foi a fé que levou a isso.

Mas não foi fácil.

- Fiquei superaflita e procurei um padre. Estava num retiro em Taizé. Ele era africano e falámos inglês. Disse-me que não tinha de estar tão aflita: "Não é pecado, é quem és, não tens de te confessar." E disse: "Talvez chegue o tempo de vermos o primeiro santo gay." Foi um choque ver as duas palavras na mesma frase. Penso que a experiência dele como africano deve ter contribuído, porque o primeiro santo africano deve ter sido um momento de viragem. São duas experiências de exclusão. Isso abriu um caminho, e deixei de estar desesperada.

Mas na vez seguinte em que se voltou a apaixonar, já não estava em Taizé.

- Tive uma má experiência com o meu orientador espiritual. Era novo, entrou em pânico e foi muito bruto. Este padre, que é um orientador, não tinha resposta para a minha questão. É um problema da própria Igreja.

O que fez?

- Durante cinco anos vivi a minha relação e afastei-me da Igreja. Foi um tempo de deserto. Procurei outras comunidades espirituais não religiosas. Identificava-me com as personagens bíblicas negativas, Caim, Judas, o Leproso. 

Até que esse namoro acabou, e Ana se viu novamente em Taizé.

- E tive uma experiência de Deus muito forte. Estava sentada a rezar, e entraram ingleses. Era uma celebração anglicana. Eu sentia que não podia comungar, mas o padre abriu os braços e disse: "Venham todos, Deus chama todos." E eu fui. O convite desse pastor foi terapêutico, e havia em mim uma disposição para a entrega, uma certeza de que Cristo estava comigo. Voltei a procurar quem me orientasse dentro da Igreja, cá, uma freira. Disse-lhe que já tinha levado um pontapé, e não queria levar outro. Mas ela não pôs condição alguma.

Leia-se: abstinência.

- Para mim, é um absurdo pensar que para viver a fé tenho de desistir da sexualidade. É por isso que acho que a Igreja não tem solução para nós. Ser homossexual já é difícil na integração social. Não é justo que a um católico falte também o apoio da Igreja: nem com isso pode contar. Falta uma outra doutrina. É essa tensão que é vivida pelas pessoas da hierarquia que estão mais próximas de nós. Como outras questões de ética sexual. Estou na missa e tenho a certeza de que a maioria daquelas mulheres tomou a pílula. 

Neste momento, vai à missa, dá catequese a 18 crianças, pertence a um grupo de oração.

- Mas sinto que vivo na Igreja do futuro, na Igreja como ela vai ser. E isso une-me a outros católicos que têm uma visão da Igreja naquilo que ela ainda não é.

(A Pública quis ouvir o cardeal-patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, para este trabalho. O responsável pela comunicação, padre Jardim Gonçalves, respondeu que o momento era inoportuno, tendo em conta os afazeres da época pascal e a preparação da visita do Papa.)

Sara Martinho, que agora vem ter à Graça, tem uma experiência de ruptura com a Igreja. Católica de baptismo e crisma, com um percurso de catequista e animadora de grupos, hoje, aos 33 anos, bissexual e dirigente da ILGA, define-se como não-crente. Não porque tenha perdido a fé, mas porque se sente roubada pela doutrina.

- Tiram-te quase tudo: a comunidade, o sentimento de pertença, a liberdade. Tentam inclusivamente roubar a relação com Deus. Ninguém tem o direito de intervir na tua relação com Deus se isso implicar a tua exclusão. Isso, sim, é fracturante. 

E diz respeito a muitos.

- Eu tinha amigos católicos gays e lésbicas, mas não sabíamos uns dos outros. Claro que há muitos homossexuais católicos. A Igreja por ser a Igreja devia ser a primeira a sair para a rua por direitos humanos como a igualdade. E é isso que se deve esperar. Vejo os perdões que os dois últimos papas têm pedido às pessoas que perseguiram há 500 anos, e é assustador imaginar que a Igreja daqui a 200 anos vai pedir perdão por ter perseguido os homossexuais. Esse momento vai chegar. A questão é que não vai ser no nosso tempo de vida.

Porquê?

- Porque a Igreja Católica ainda tem passos muito mais fáceis, antes. Por exemplo, a paridade, para as mulheres poderem ser sacerdotes. Esse passo ainda não foi dado, e todas as outras igrejas já o deram. 

6. Évora

Céu transparente, prados com flores, um esplendor. De tanto Inverno, já não sabíamos como era. Aqui vamos, no Alto Alentejo.

Em qualquer busca sobre cristãos homossexuais portugueses, Évora aparece em destaque. Foi lá que em 2007 nasceu o Rumos Novos (rumosnovos.no.sapo.pt). Foi lá que este grupo organizou encontros nacionais e ibéricos. E é lá que se continuam a planear reuniões mensais (17 de Abril, Hotel Ibis Saldanha) e o encontro anual de aniversário (1 de Maio, Fátima). 

Também há elementos da Rumos Novos em Lisboa, Setúbal, Coimbra e Lamego, mas o centro continua em Évora.

Não é um escritório. É mesmo a casa de José Leote e do seu companheiro Ricardo, num bairro à saída da cidade. O arquitecto que o desenhou pôs madeira nas janelas, e outras simplicidades, mas José reformulou. Agora, há azulejos, vidros laminados e paredes azul-petróleo.

José, 39 anos, é professor no secundário. Ricardo, 25 anos, é chefe de cozinha, trabalha até tarde, e só agora está a descer do quarto.

Dos dois, só José é católico. 

- Mas não sou seguidista nem acéfalo. Questionei sempre orientações que punham em causa a justiça. O maior mandamento que Cristo deixou foi: "Amai-vos uns aos outros como eu vos amei." Portanto, não é justo que a Igreja pseudo-acolha os homossexuais. 

Não basta que desde 1975 tenha deixado de ser pecado, porque continua a ser algo negativo. 

- A Igreja tem um problema em relação à sexualidade, ponto final. Também lida mal com a pastoral dos divorciados. Há o problema dos casais inférteis. O problema do preservativo e da pílula. 

E virando-se para o companheiro:

- Ó amor, dá-me aquela pasta do Rumos Novos.

Ricardo passa-lhe várias. José folheia exemplos bíblicos de condenação da homossexualidade.

- Mas na altura da Bíblia não se conheciam as relações estáveis entre pessoas do mesmo sexo. A sexualidade era a do Império Romano, em que a homossexualidade era corrente. E como os cristãos queriam formar uma sociedade diferente, atribuíam causas negativas ao que viam. Mas Cristo nunca se pronunciou sobre a homossexualidade. Disse: "Aquilo que fizerdes ao mais pequenino, é a mim que fazeis." Exortou os fiéis a amar por acções. Isto mostra que ir buscar a Bíblia para condenar a homossexualidade é escorregadio. As maiores atrocidades foram justificadas pela Bíblia, a repressão das mulheres, a escravatura, condenar pessoas à fogueira, a legitimação política de alguns regimes. 

Como vê a actuação da Igreja Católica portuguesa, especificamente?

- Dá-se uma no cravo, outra na ferradura. Na manifestação da dra. Isilda Pegado [contra o casamento gay], a hierarquia disponibilizou os meios, mas não veio para a rua. Foi uma manifestação de ódio. Seria bom que a dra. Isilda Pegado viesse fazer uma manifestação para defender as vítimas de pedofilia da Igreja. Ainda não consegui perceber como é que o casamento entre pessoas do mesmo sexo põe em causa os fundamentos da sociedade.

- Eles têm medo que as crianças absorvam aquilo e se tornem todas homossexuais - diz Ricardo. - Na SIC Notícias, um senhor estava indignado porque a filha ia ver raparigas aos beijos.

José suspira.

- Tem de se explicar ao senhor que isto não se pega.

No fim de Junho, o Rumos Novos estará em Barcelona, no Encontro Europeu dos Grupos Homossexuais Cristãos.

7. Saldanha

Sobre o casamento, vale a pena ouvir Frederico Lourenço, porque ele traz uma novidade. Pouca gente em Portugal terá feito tanto contra clichés como este helenista de 46 anos, tradutor de Homero e escritor. Católico, aprumadíssimo no trato, sempre vestido como se estivesse a chegar de Oxford (onde passou a infância), não só vive a sua homossexualidade desde os 18 anos, como a assumiu de forma pública em 2002, e escreve sobre ela. 

Como se mudou para a Universidade de Coimbra, quando vem a Lisboa fica num hotel, sempre o mesmo, e é aí que nos encontramos, ao fim da tarde. A grande coincidência é ser o Ibis Saldanha, onde o Rumos Novos faz reuniões mensais. Mas é mesmo coincidência. Frederico Lourenço não sabia. Não faz parte de nenhum grupo. Há anos foi convidado a assistir aos encontros da Capela do Rato, mas não aceitou.

- Já vivia certo afastamento da manifestação pública do sentimento religioso, e senti que não me iria rever. 

Esse seu afastamento reforçou-se. A novidade é que não defendia o casamento homossexual, e agora defende.

- Eu disse num inquérito do PÚBLICO que isso colidia com a minha formação, que votaria sim num referendo, mas a minha vivência não passava por aí. E fui-me dando conta de que isso não correspondia ao que sinto.

O que o fez mudar?

- O próprio debate sobre o casamento gay. Foi fundamental. Acho que há um Portugal antes e depois. As pessoas foram obrigadas a olhar para a questão. Eu sabia que havia uma discrepância em mim. Desde os 20 anos que não estou solteiro, tive três longas relações encadeadas. Isso foi-me fazendo afastar da Igreja. Nunca tive qualquer embate negativo, nem no confessionário, mas houve sempre um convite à castidade, e eu não nasci para viver em castidade. Mesmo assim, achava que a questão do casamento era um limite. Mas, de repente, dei-me conta de que os argumentos da Igreja já não faziam sentido. 

A este ponto:

- Coloco a hipótese de me casar. Não por razões pragmáticas, herança, impostos, contas bancárias, mas como gesto romântico, de compromisso perante pessoas, um voto de confiança no outro, na relação, em nós próprios. E agora isso é uma barreira entre mim e o catolicismo. 

Para ser coerente, não vê alternativa.

- A Igreja não tem resposta. Nunca ouvi outra resposta que não fosse esse convite optimista à castidade. Para mim foi inevitável um corte, embora acredite em Deus, reze quase todos os dias e sempre que posso entre numa igreja. Mas estar inserido numa prática pública do catolicismo é uma mentira, porque a minha vida sexual não corresponde a essa personagem. Já não comungo desde 1998. Comecei a sentir o peso da contradição, e não pactuo com isso. Se não posso ser aceite exactamente como sou, então não faz sentido estar a representar um papel.

E não vê bons sinais no Vaticano.

- Terá de vir um papa muito mais aberto. Este parece-me uma figura anacrónica, que leva a Igreja para o passado ainda mais que João Paulo II. Grande teólogo, não duvido, inteligentíssimo, mas está a fazer tudo para que a Igreja não se aproxime do futuro. A questão do celibato tem de ser urgentemente revista. A não-ordenação de mulheres é o cúmulo, é impensável. Há toda uma série de premissas que tinham de ser revistas: a sexualidade como reprodução, o não se aceitar que a sexualidade tem um alcance infinitamente maior.

A estreia pública de Frederico Lourenço a defender o casamento homossexual será dia 3, na Universidade Católica de Braga.

8. Capela do Rato/Igreja 

de Santa Isabel

Domingo de Ramos, de novo, mas agora de manhã. 

Na Capela do Rato prepara-se a missa. Além dos ramos verdes a toda a volta, há uma pintura contemporânea no altar. É uma instalação de Rui Moreira, a convite de José Tolentino Mendonça, que está a tentar trazer a arte para a igreja. 

Há uma alteração de eixo nesta capela. O altar não está ao fundo, mas a meio, o que faz com que as pessoas fiquem em volta, ou seja, mais perto. Se os lugares absorvem o que neles acontece, como a vigília contra a guerra em 1972, este lugar estará cheio de inquietação e empenho.

A missa aqui será às 12h30, na Igreja de Santa Isabel às 19h30. 

Saltemos então para Santa Isabel, já noite escura, com os padres Tolentino Mendonça e José Manuel novamente sentados junto a uma tela de Ilda David".

Um a um, os católicos homossexuais ouvidos pela Pública dizem que a Igreja não tem resposta para eles. 

Que pensa o padre José Manuel?

- Não tenho uma resposta. Uns dirão: "Não consigo, vou-me embora." É uma maneira. Outros dirão: "A castidade é uma proposta que me fazem, é para lá que quero caminhar." Não é sim ou não. Há uma proposta de um caminho. 

Que pensa o padre Tolentino?

- A realidade da Igreja é sempre atravessada por uma tensão, e essa tensão é atravessada por aquilo que somos, e pela dimensão utópica que a Igreja transporta. A Igreja não é um lugar de plenitude, é um lugar de procura. A nossa condição é a sede e o desejo. Não é aqui e agora que se realizam os sonhos. A Igreja é esse caminho comum, não isento de imperfeições, aberto a uma progressividade. A condição comum é que alguém se sinta desafiado a um caminho.

E quando as pessoas nem se sentem acolhidas?

- Sempre que a Igreja não acolhe é um erro. Todos os documentos oficiais e todas as expectativas justíssimas de um cristão são no sentido de acolhimento e hospitalidade.

Incondicional?

- Incondicional.

O padre José Manuel reforça:

- Incondicional.

A abstinência não é uma condição?

- Não se trata de entender a castidade pela negativa - prossegue Tolentino. - Mas entendê-la como um dom, uma oferta, um serviço. É uma proposta que não se pode impor, mas que é feita. Cada pessoa que se aproxima da Igreja transporta uma história sagrada e tem de ser acolhida. Não se pode tomar as formulações da doutrina como um fantasma. Isto quer dizer que é muito importante que as pessoas sintam que a sua história é valorizada, e que o discernimento que cada um faz da sua vida é feito em liberdade. 

Muitas pessoas sentiram o contrário ao falar com padres.

- Às vezes há falta de interlocutores pastorais, é verdade. Algumas dioceses no mundo têm mesmo padres responsáveis por acompanhar homossexuais. Em Portugal ainda não há esta pastoral organizada, o que não quer dizer que não existam experiências de escuta, de acompanhamento, e isso está a construir um património de mútua confiança.

Mas são raríssimos os testemunhos públicos. O Casamento Sempre foi Gay e Nunca Triste é um livro único. Que pensa Tolentino sobre ele?

- É um texto que mostra a procura de um cristão, com poemas de grande intensidade. Dá que pensar.

 

9. Alentejo
Voltemos, então, ao princípio.

"Viver uma ficção alheia, ou ser reduzido a uma ficção dos outros, é uma forma de desumanização", escreveu José António Almeida.

E se isso custa em Lisboa, mais ainda "numa vila da província" como esta. À volta, campos de vinhas e olivais que começam a aquecer. No centro, a igreja matriz tão cuidada, com o seu debrum vermelho. Em frente, a casa onde José António mora.

Primeiro estamos lá dentro a olhar o largo. Depois saímos e ele pára no largo a olhar a casa.

No livro Obsessão (& etc, 2010), fala da manhã em que as paredes apareceram cheias de insultos. "A minha casa branca pintada de azul /com letras infames." Respondeu em verso: "- eis aquela província que não muda. / Sobreviver de pedra e cal à beira / disto: diário gesto repetido."

E que eco teve do livro anterior, o tal dedicado aos católicos homossexuais com quem rezou e reflectiu?

- Silêncio. Silêncio. A única recensão saiu no Expresso. Enviei o livro a vários padres mas só tive uma resposta. Não suscitou qualquer debate. O nosso clero "conservador" não abre portas cerradas e o nosso clero "progressista" só arromba portas abertas.

Reportagem publicada na edição da revista Pública de 11 de Abril de 2009
Alexandra Lucas Coelho

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