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O que sabemos – realmente – sobre a Parentalidade Lésbica e Gay
2015-02-21
Photo by Antoine Antoniol/Getty Images

 

Na semana passada foi publicado um novo estudo que conclui que os adolescentes holandeses com mães lésbicas “não mostraram diferenças significativas” dos seus pares com progenitores de sexo diferente. Esta semana, outro novo estudo foi publicado concluindo o contrário: “problemas emocionais prevaleciam em mais do dobro … para crianças com progenitores do mesmo sexo do que para crianças com progenitores de sexo diferente”.

A nova investigação é oportuna porque esta primavera o Tribunal Supremo irá ouvir argumentos de casais com o mesmo sexo e, a última vez que se examinou este assunto, em 2013, surgiram dúvidas acerca do impacto do casamento gay nas crianças. Nessas audições, o juiz Antonin Scalia declarou que havia “um desacordo considerável entre os sociólogos sobre quais [são] as consequências de educar uma criança numa família do mesmo género, se é prejudicial ou não para a criança”. No entanto, o juiz Anthony Kennedy, optou por focar-se nos danos “imediatos” das 40,000 crianças com progenitores do mesmo sexo na California. “A voz dessas crianças é importante neste caso”, disse, “Não vos parece?”.

Então o que – realmente – diz a investigação sobre como a parentalidade lésbica/gay afeta as crianças? E qual é a ligação, se é que existe, entre a parentalidade lésbica/gay e se gays e lésbicas merecem ter o direito a casar?

Num projeto iniciado no mês passado, uma equipa que eu dirijo na Escola de Direito de Columbia recolheu num website os resumos de todos os estudos revistos por pares que abordam esta questão desde 1980, para que qualquer pessoa possa examinar a investigação diretamente, e não dependa de locutores ou de um potencial pensamento de grupo. Mesmo quando possivelmente não concordámos com as conclusões de um estudo – com a forma como o investigador interpretou a informação – nós o incluímos, desde que tivesse passado pela revisão por pares e fosse relevante para o tópico em questão. A revisão por pares, naturalmente, não é perfeita, mas é uma das melhores formas que o mundo tem de assegurar que as conclusões da investigação são, pelo menos, o produto de esforços de bem-intencionados para chegar à verdade.  

O projeto de Columbia é, até agora, a maior coleção académica de estudos revistos por pares sobre parentalidade lésbica/gay. O que ela revela? Nós encontramos 71 estudos que concluem que as crianças com mães lésbicas/pais gay não estão piores do que as outras, e apenas quatro concluem que elas tinham problemas. Porém, todos esses quatro estudos sofrem da mesma grave limitação: as crianças com mães lésbicas/pais gay foram misturadas com crianças de famílias que passaram por um divórcio, um grupo conhecido por enfrentar maiores riscos relacionados com o trauma da separação familiar.

O “desacordo” sociológico de Scalia é completamente inventado. Tal como a nossa recolha deixa claro, e assim como a Associação Sociológica Americana concluiu no seu comunicado para o Supremo Tribunal em 2013. O consenso de académicos respeitáveis no assunto é impressionante e o punhado de investigadores que pretendem mostrar danos na parentalidade lésbica/gay não são exceções corajosas como Galileu, que falam a verdade para o pensamento único; eles são oponentes ideológicos da igualdade gay, e são parte de uma campanha orquestrada para influenciar o Supremo Tribunal com histórias assustadoras e falsas bolsas de estudo. Os seus financiadores procuram desacreditar investigações genuínas com objetos de discussão enganosos e fazer reivindicações radicais anti gay que as suas investigações com defeitos não sustentam. De facto, Scalia (ele próprio não tem amigas/os lésbicas/gay, naturalmente) parece ter caído no seu gancho, linha e anzol de artimanha.

As histórias assustadoras e essas investigações partilham a mesma tática enganadora de conscientemente misturar crianças de mães lésbicas/pais gay com crianças de famílias que passaram por um divórcio. É algo fácil de fazer, mas é censurável: ainda mesmo usando os dados do investigador anti gay Mark Regnerus, apenas uma minúscula parte das crianças que ele classifica como tendo uma mãe lésbica/um pai gay foi, na realidade, educada por um casal estável do mesmo sexo – menos de 1 porcento. A vasta maioria das mães lésbicas/pais gay provavelmente separou-se dos/as outros/as pais/mães biológicos/as das crianças, e assim a vasta maioria das crianças com mães lésbicas/pais gay são filhos do divórcio. 

No entanto, o estudo publicado esta semana, escrito por Paul Sullins, um padre católico casado e um membro de um instituto religioso associado ao Conselho de Investigação da Família, um grupo de ódio homofóbico, apresenta uma conclusão completamente irresponsável dos seus dados: que “as crianças em famílias do mesmo sexo estão 2.38 vezes mais em risco de problemas emocionais comparadas com crianças em famílias de sexos oposto”. Sem separar as famílias que passaram por um divórcio das famílias de lésbicas/gay, isto simplesmente não é uma declaração que os dados sustentem. 

Na última sucessão de histórias assustadoras é pretendido associar rostos à investigação falsa. Em “amicus briefs”, cartas abertas e comentários em blogs, quatro crianças que têm progenitores gay mas que se opõem ao casamento gay e que todos eles têm um passado de fanatismo anti LGBT, estão a suplicar aos tribunais que mantenham a proibição do casamento gay porque as suas histórias pessoais mostram que, seguramente, alguém com mães lésbicas/pais gay sofrerá como eles sofreram. “Cada criança é concebida por uma mãe e um pai a quem essa criança tem um direito natural”, escreve Katy Faust, que tem uma mãe lésbica mas que se opõe ao casamento gay. “Quando uma criança é colocada numa família liderada por pessoas do mesmo sexo, ela sentirá a falta de pelo menos uma relação parental crítica e a influência vital dos dois géneros”.

Esta noção de que uma configuração parental de géneros diferentes tem alguma coisa a ver com o bem-estar da criança é categoricamente contradita pela investigação. Mas o argumento de Faust, se podemos charmar-lhe assim, não tem nada a ver com os fatos; o seu caso baseia-se inteiramente na sua própria experiência com uma mãe lésbica. E que acaba por ser, sem surpresa, o colapso da relação da sua mãe e pai. “O divórcio dos meus pais tem sido a experiência mais traumática nos meus trinta e oito anos de vida”, ela escreve, acrescentando que daria tudo para “ter o meu pai e a minha mãe amando-me debaixo do mesmo teto”. É uma história de partir o coração, mas é uma história que tem não tem, literalmente, nada a ver com parentalidade lésbica/gay, e tem ainda menos a ver com o casamento de pessoas com o mesmo sexo. Afinal, foi a dissolução de um casamento de pessoas de sexo oposto o que destroçou Katy Faust.

A história de Katy Faust está a ser publicitada pelo Instituto Witherspoon, um grupo conservador religioso que ajudou a dirigir e financiar a campanha Organização Nacional pelo Casamento, como exposto em documentos no tribunal, para artificialmente “elevar os custos do casamento gay” relacionando-o com a pornografia e uma ameaça às crianças, e para financiar uma “campanha nos média para apoiar a ideia de que as crianças necessitam de uma mãe e de um pai”. O esforço procurou “influenciar as votações e outros estudos para documentar as consequências do casamento gay” e “identificar e alimentar uma comunidade mundial de intelectuais altamente qualificados e académicos, médicos, psiquiatras, trabalhadores sociais e escritores para abonar as nossas preocupações” acerca do casamento e parentalidade lésbica/gay. Não importa o que as investigações atuais dizem; sempre podes contratar pessoas para “credenciar as tuas preocupações”.

Como parte do seu esforço para impedir o casamento entre pessoas do mesmo sexo, Katy Faust tenta desacreditar o consenso académico de que a parentalidade LGBT não prejudica as crianças, recorrendo ao boato popular preferido de conservadores sociais: “A oposição irá abordar os estudos em que os investigadores concluiram que as crianças com agregados familiares do mesmo sexo estão, alegadamente,” bem ou melhor que os seus companheiros, ela escreve. Esses estudos, reivindica ela, estão manchados de “problemas metodológicos”, e, de qualquer forma, as suas conclusões não podem ser verdadeiras, porque toda a gente sabe que para que os casais gay tenham crianças eles têm de arrancá-los de pelo menos um dos seus progenitores “verdadeiros”.

O que os críticos se referem quando falam de “problemas” ou “falhas” metodológicas são amostra pequenas, ou amostras não-aleatórias, conhecidas como “amostras de conveniência” que frequentemente são usadas na investigação sobre parentalidade lésbica/gay. Mas utilizar uma amostra de conveniência não é uma falha metodológica; é simplesmente uma metodologia distinta, com potencialidades e limitações. Todas as investigações têm limitações, nenhuma mais do que as lançadas pelos conservadores religiosos, que confundem ter um/a pai gay/mãe lésbica com ter vivido uma separação familiar. De facto, estudos pequenos, qualitativos e longitudinais têm certas vantagens sobre os estudos probabilísticos, e, por essa razão, eles são frequentemente escolhidos por quem conduz investigação sobre o desenvolvimento infantil de forma genuína, do em cargos politizados: eles permitem aos investigadores detetar e analisar subtilezas e contornos no desenvolvimento infantil que escapam frequentemente aos grandes estudos estatísticos. 

De facto, o novo estudo holandês, que observa apenas 67 indivíduos com mães lésbicas, na realidade usa um método de amostra mais forte do qualquer estudo em que se encontra que a parentalidade lésbica/gay é prejudicial. Escrito por investigadores da Universidade de Amesterdão e do Instituto Williams na Escola de Direito da UCLA, o estudo recolhe informação do Estudo Longitudinal Holandês de Famílias Lésbicas, que começou em 2000 e que acompanha as experiências de crianças com progenitores do mesmo sexo ao longo do tempo. Este comparou adolescentes holandeses em famílias lésbicas planeadas com adolescentes em famílias com pais heterossexuais e não encontrou quaisquer diferenças significativas. O que encontrou sim, foi que havia problemas de comportamento naqueles com mães lésbicas, e que estes problemas estavam relacionados com a discriminação homofóbica, algo que os investigadores anti gay cometem incansavelmente em nome da preocupação pelas crianças.

Nanette Gartrell, uma co-autora, explica que uma das vantagens mais significativas do novo estudo é o uso de uma “amostra emparelhada” de 1-1. Isto significa que 67 crianças com mães lésbicas são combinadas com 67 crianças com progenitores de diferente sexo para que desta forma variáveis externas, tais como a idade, a educação dos progenitores, e – mais importantes – a estabilidade familiar, não invalidem os dados. Esta é a única forma de comparar maçãs com maçãs e é muitas vezes impossível com métodos de amostras extensas e aleatórias, tal como Regnerus descobriu quando artificialmente inflacionava a sua amostra de forma a espremer qualquer coisa relevante para os seus dados.

traduzido e adaptado de Slate, por Nathaniel Frank

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