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Dia dos Pais - P3: Para ela, o Dia do Pai é a dobrar
2015-03-19
Dia dos Pais - P3: Para ela, o Dia do Pai é a dobrar
 

Para Georgina, ele é "papalu". Rouba-lhe um abraço a meio da entrevista ("A tua barba pica", reage, quando o pai lhe furta um beijinho), leva-lhe um prato de batatas fritas antes da conversa começar (e com humor, questiona: "Quer mais alguma coisa, senhor?"), vai buscar um álbum para mostrar fotografias suas em bebé:

— Foi muito mimada pelas enfermeiras no hospital porque era uma bebé muito fofa, conta o pai.

— Mas todos são, responde a filha.

— Mas tu eras mais.

O âmbito da entrevista, feita por Skype, é o Dia do Pai — e todos estes interlúdios ajudam a contar história desta família, literalmente arco-íris (da língua à cor da pele). Há nove anos que Luís Amorim, 44 anos, está a cumprir o sonho que acalentava desde pelo menos os 23 anos, altura em que um livro lhe provou que a paternidade para homossexuais não era uma utopia. Há nove anos, quase dez, estavam Luís e Jarl (o outro "papa"), companheiros de vida há 18 anos — há quatro de papel assinado — metidos num avião, de Bruxelas para Chicago, para irem conhecer aquela que viria a ser a sua Georgina. E é aqui que as palavras faltam: "É aquela sensação de estarmos perante um ser único (...) e saber que esta 'pessoinha' pequenina que está aqui é a minha filha ou vai tornar-se a minha filha."

Em 1996, quando Luís chegou a Bruxelas para trabalhar no European Youth Forum, esperava regressar a Portugal três anos depois, fazer um mestrado e, possivelmente, ingressar na carreira académica. "E depois, claro, saiu tudo diferente", diz, de sorriso aberto. Num 25 de Abril, através de um amigo comum, conheceu o sueco Jarl — e o amor, lá está, trocou as voltas. Hoje ambos vivem em Bruxelas, trabalham no Conselho Europeu e são pais de Georgina, menina que adoptaram em 2005 com dois meses de idade, hoje com quase 10 anos, que vive numa pequena Babel: uma casa com três tons de pele onde se falam três línguas (português, sueco e inglês), onde regressa todos os dias depois da escola europeia (tem o ensino em português, segunda língua inglês)

Processo de adopção "laborioso"

Nascido em Angola, filho de mãe angolana e pai português, Luís não deixou, desde cedo, que a sua orientação sexual silenciasse a sua vontade . Sempre quis ser pai, mas, diz, nem toda a gente o levava a sério. "Para as pessoas da minha geração — e digo minha geração porque as coisas mudaram entretanto — era um projecto muito longínquo. (...) No fundo pensavam: 'Isto vai ser muito problemático, muito complicado, mas deixa-o sonhar." Ainda em Portugal, comprou o tal livro que lhe mostrou que "lá fora havia um mundo de pessoas que tinham conscientemente decidido ser mães ou pais apesar de estarem numa relação com uma pessoa do mesmo sexo". Foi "reconfortante", afinal não era o "único". "The Guide to Lesbian and Gay Parenting", de April Martin, está com ele em Bruxelas. Abre-o, lê na primeira página a data de compra: 23 de Junho de 1994. E ri-se. "Já há muito tempo que tinha esta ideia."

Luís e Jarl começaram "seriamente" a pensar tornar-se pais em 1999; a candidatura foi apresentada em 2002 e Georgie chegou três anos depois. Optaram pela adopção porque sempre viram "uma família como um recurso" — e há muitas crianças a precisarem dele. E ambos sempre encararam a parentalidade, "não como algo biológico", mas como algo "humano", ligado ao "sentimento" — serve de resposta às polémicas declarações de Dolce & Gabbana?

Foi um processo "laborioso". Elementos-chave: "preserverança" e "sorte" nas pessoas que foram encontrando ao longo do percurso, de assistentes sociais a administrativos, sempre com "abertura de espírito". Apresentaram-se, desde o iníco, como um casal, um caso "único", até porque a adopção por casais homossexuais só seria aprovada na Bélgica mais tarde, em 2006. Eram raros os casos, contou-lhes a assistente, em que era assumido um companheiro à partida, mesmo por uma pessoa singular, neste caso Luís (Jarl adquiriu em 2007, quando a lei mudou, os mesmos direitos; até então era "a pessoa que iria exercer também um papel educador"). Mas para eles só fazia sentido assim: "Se calhar, por vivermos na Bélgica, sentimos que havia, em geral, uma atitude mais acolhedora. E era um projecto tão comum aos dois que, sinceramente, penso que seria impossível manter a fachada de que se tratava de um processo individual mais do que cinco minutos."

 

Além de que "esconder" seria "aceitar" que havia algo de "errado" com eles. E aqui Luís aponta o dedo ao ainda "hipócrita" modelo português no que respeita à adopção por casais do mesmo sexo: "É a criança que precisa de uma família, não são os adultos que precisam de uma criança. Acho que é contraproducente um sistema onde as pessoas se sentem obrigadas a esconder uma parte importante da sua vida porque é preciso avaliar quem de facto vai cuidar e educar. Se há duas pessoas, as duas têm de ser avaliadas porque é assim que se defende o interesse da criança."

"We have a situation"

Depois de muitos avanços e recuos, e de serem aconselhados a optar por uma adopção internacional, os próprios Luís e Jarl transformaram-se numa agência ("Chegava do escritório e costumava brincar: 'agora vou abrir a agência de adopção por mais umas cinco horas'".) Isto porque, apesar dos serviços sociais elogiarem o perfil e o relatório, não havia quem se dispusesse a analisar o dossier. Lá foram dar a uma "maling-list" criada por um professor na Universidade de Harvard para pais e mães LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgéneros), lá receberam um e-mail que referia uma agência de Chicago que os poderia ajudar e lá o processo começou a "concretizar-se".

Luís estava no Kosovo em trabalho quando recebeu "A" chamada. Do outro lado, Jarl: "We have a situation". Tinham uma "situação". "Era a Georgina!" — e é nesta parte da conversa que a própria agarra o álbum de fotos e lá a vemos, nos braços dos pais, na véspera de chegar a Bruxelas. Primeiro foram a Chicago uma semana visitá-la. Conheceram a família de acolhimento, o Tio Ed e a Tia Becky, com quem continuam em contacto: de dois em dois anos atravessam o oceano para estar com eles. Foi, aliás, Becky quem lhes deu as "primeiras lições". Mas, garante Luís, "quando uma pessoa quer muito uma coisa, aprende".

Durante os primeiros sete meses de vida de Georgina (período correspondente à licença de paternidade e às chamadas férias parentais) foi Luís quem ficou em casa. "A responsabilidade calhou-me a mim e era eu que maternava (sic)." "Maternar" é um verbo que Luís utiliza, de quando em quando, e que com ele derruba umas quantas convenções sociais que estão relacionadas com a parentalidade. Vejamos: quando colegas de Georgina lhe perguntaram "tu não tens mãe?" — o que queria esta questão realmente dizer? "Há uma série de de tarefas, responsabilidades, papéis que temos tendência a atribuir a sexos diferentes, mas que pertencem, sim, ao ser humano. (...) Da mesma maneira que para fazer uma ponte não é preciso um engenheiro, pode ser uma engenheira, para educar, mimar e, se quisermos, maternar uma criança, não é preciso um corpo e um cérebro feminino. São tarefas humanas." Tal como o afamado "instinto maternal", deve ser antes, considera Luís, "instinto de ser humano". Ajudaram-na nessa resposta: "Sim, toda a gente tem mãe, tu não tens é a tua mãe biológica a viver contigo." E questionaram: "Mas, afinal, o que é que as mães fazem?" E à resposta, com uma enumeração de tarefas, remataram: "Mas tu tens quem faça todas essas coisas."

Para Georgina, "a realidade de ter dois pais é algo absolutamente normal": "Quando ela tinha três anos, as perguntas que nos fazia era: mas então quando é que aqueles meninos foram adoptados?" Há questões, claro. "É natural." O importante é "aceitar a curiosidade dos outros" e mostrar às pessoas que podem "celebrar a diferença", que não tem de ser algo negativo.

Sair das saias das mães e das calças dos pais

Um estudo recente de Susan Golombok, investigadora da Universidade de Cambridge, que em "Modern Families: Parents and Children in New Family Forms" compila 35 anos de pesquisa em novas estruturas familiares, para além de referir um desenvolvimento semelhante das crianças que crescem em novas estruturas familiares com as de famílias tradicionais, desafia precisamente a "centralidade da mãe". Escreve a autora no Child and Family Blog: "Apesar de ainda terem sido conduzidos poucos estudos, as conclusões destes não evidenciam um aumento de problemas de adaptação ou desenvolvimento atípico de género entre crianças com dois pais homossexuais e crianças com duas mães ou pais heterossexuais."

Antes de Dia do Pai ou da Mãe, deveria existir um "Dia dos Pais", considera Luís. Ainda que compreenda que, no contexto actual, seja importante "validar" o papel do pai, que, sobretudo nas famílias heterossexuais, precisa de mais apoio para que a "definição de paterno se torne mais parecida com a definição de materno — e vice-versa". Porque há "muitos homens com vontade" de, lá está, "maternar", de fugir daquilo que a sociedade diz que deve ser um pai (o preconceito que é ele que impõe disciplina, por exemplo) e abraçar o outro lado. Por que razão é que os filhos só não saem "das saias da mãe"? Porque não "das calças dos pais"? É "sobretudo importante desconstruir estas visões rígidas de que é que um pai faz, o que é que uma mãe faz". "Nós precisamos é de gente para tomar conta de crianças — e precisamos de pais e de mães".

Última pergunta, obrigatória: e mais filhos, há planos? Luís faz um sorriso tímido. "Sim." O processo está a decorrer, demorará à vontade mais um ano. "Vamos lá ver." Menino? Menina? Logo se verá, não há preferência, mas...: "Eu gosto muito de ter uma filha. E acho que o Jarl também."

in P3, 19 março 2015

 
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