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A história de uma rapariga que expulsou o rapaz que vivia dentro dela
2015-03-30
A história de uma rapariga que expulsou o rapaz que vivia dentro dela

Daniel e Daniela. A história de uma rapariga que expulsou o rapaz que vivia dentro dela

Soube desde cedo que nasceu com o sexo errado. O que via ao espelho não condiza com o que sentia. Libertar-se de um intruso que tomou conta do seu corpo foi o longo processo

Daniela ganhou mais uma batalha. Cresceu com sonhos de rapariga num corpo de rapaz. Há um ano, ela ainda era ele embora não se visse dessa forma. Expulsou Daniel da sua vida, mas ficou com uma parte da vida dele. Manteve o emprego: “Sou boa profissional logo não seria por essa razão que iria desistir do meu trabalho.” 
 
A partir do momento que Daniela entrou no local de trabalho, os colegas e a empresa deram-lhe as boas-vindas com uma série de novas rotinas, desde trocar ele por ela nas conversas de corredor até à assinatura e ao correio electrónico interno da empresa. A Daniela das noites e dos fins-de-semana tomou conta dos dias de semana e Daniel ficou no passado.
 
“Primeiro falei com as pessoas mais próximas, com aquelas que lidava diariamente. Juntos fomos comunicando de forma gradual a minha situação para dar um tempo de reflexão na empresa”, conta a Daniela, enquanto nos abre a porta de casa que foi o seu esconderijo durante anos. E depois começou a mudar a aparência. Não de forma drástica. A metamorfose aconteceu devagarinho para evitar choques num meio dominado por homens.
 
Os circuitos do trabalho passaram também a ser diferentes. Começou a frequentar as zonas femininas, inclusive as casas de banho. Pequenas mudanças que ajudaram na reintegração da nova funcionária: “Hoje raramente se enganam e toda a gente me trata por Daniela.”
 
Além de programadora, a sua aptidão para áreas tecnológicas levou-a a estudar Astrofísica. O gosto pela física e astronomia vê-se nos quilos de livros, sebentas e papéis espalhados pelo quarto. Um quarto com um armário cheio de vestidos, saias, blusas e a um canto um estúdio onde todos os dias apaga Daniel do reflexo do espelho e faz sobressair Daniela. 
 
OS PRIMEIROS SINAIS  Daniela iniciou o tratamento para mudar o sexo há cinco meses. Era ainda uma criança de 5 anos quando surgiram as primeiras dúvidas sobre a identidade sexual: “Há situações que parecem verdadeiros clichés mas que, na realidade, acontecem. Eu vestia a roupa das mulheres lá de casa às escondidas, estava constantemente a roubar-lhes os adereços sem elas se aperceberem”.
Daniela olhava para a irmã e queria ser como ela. “Não era bem o gostar de ser como ela, mas é o de identificar-me directamente com ela. Não conseguia sentir afinidade com os rapazes”. A maior parte das amizades que foi desenvolvendo ao longo dos anos eram do sexo feminino. E eram poucas as amigas, já que sendo um “menino esquisito e estranho”, tinha dificuldade em socializar. 
 
Passou por várias situações “difíceis” e ainda se lembra bem do seu 5.o ano na escola. Agressões e insultos dos colegas e, pior ainda, conta Daniela, eram os pais dos alunos que incentivam os filhos a terem esse comportamento. E não ajudava nada ser um “excelente aluno magrinho e sensível”, que gostava de brincar com raparigas. Mudou de escola quando começou a frequentar o ensino secundário: “Precisava de novos amigos e novas relações.” A adolescência foi um caminho atribulado. Tão atribulado que julga ter sido esta uma das razões para o divórcio dos pais: “Passei algum tempo a tentar resolver essas questões porque tinha algumas depressões associadas.” Nas recordações, Daniel surge muitas vezes durante as conversas, como um lapso ou como um velho hábito que não desaparece do dia para a noite. Afinal, “foram muitos anos a viver numa capa”. À medida que as depressões se foram agravando, a mãe decidiu que Daniela, com 17 anos na altura, deveria ter um acompanhamento psicológico.
 
“Qual a fonte de sofrimento principal quando temos tantas questões para resolver? Identidade e orientação são coisas diferentes mas, na minha cabeça, aparecia tudo embrulhado no mesmo bolo”. Os pontos de interrogação ficaram tão grandes que, no início da vida adulta, decidiu sair de casa, no Cartaxo, em Santarém, e ir viver para a grande cidade que é Lisboa. “Precisei de dar um passo em frente, mas a verdade é que no princípio piorei porque foi uma grande mudança. Continuei a ter acompanhamento psicológico e comecei a tentar resolver as questões que tinha dentro de mim”.
 
A MUDANÇA  Mudou-se para Lisboa com 18 anos e a sua vida “deu uma enorme volta”. Perdeu definitivamente o contacto com o pai. Era uma figura distante e ausente com quem teve muitos problemas. Não foi só o divórcio mas também todos esses problemas da adolescência e de identidade que Daniela levou para o consultório do psicólogo. A mãe, por sua vez, não percebeu muito bem o que estava a acontecer porque o filho, que afinal era uma filha, era uma jovem “muito reservada”. Até que um dia decidiu falar com ela. “A minha mãe achava que se tratava apenas de uma fase, de uma ‘esquisitice’. Eu própria também achava isso pois não sabia o que estava a acontecer comigo.” Antes de falar com a mãe, já tinha confessado os medos a uma amiga do liceu. A irmã de nada se apercebeu, nem quando Daniela lhe tirava as roupas e a maquilhagem. Nunca deu por falta de nada porque tudo voltava ao sítio como se ninguém tivesse tocado nas coisas dela.
 
“Recordo-me de, no início da terapia, questionar tudo, mas nem sabia que nome dar a isto.” No entanto, como todos os problemas se concentraram no mesmo lugar, a cabeça de Daniela era um reboliço que a deixou isolada: “Não socializava e a minha existência estava resumida a casa, trabalho e escola.” Em Lisboa, cidade dos anónimos, via-se num mundo novo. Contudo, todo aquele sentimento recalcado na adolescência veio ao de cima: “Olhava para as raparigas nas ruas e havia qualquer coisa... como se eu estivesse dentro delas”.
 
Cada vez com maior consciência de que algo se passava, começou a comprar vestidos e maquilhagem, aos 19 anos. Escondia as sombras, a base, o lápis do rímel e o batom entre as outras roupasno armário. “Comecei a olhar-me ao espelho e a visão era estranha como se fosse um bocado desconexa daquilo que sou. Não era a questão de estar vestida, era a de olhar para mim e sentir que ficava mais próxima de uma rapariga.” Foi a partir deste momento que Daniela começou a sorrir. “Era quando me vestia e arranjava desta forma que eu me sentia bem porque até aí sempre fui muito sisuda, ria pouco”. E devagarinho começou a frequentar sítios de travestis aos fins-de-semana e noites, vestida e maquilhada como qualquer outra mulher: “Era a mais nova, já tinham todos os seus 30 e 40 anos mas sentia-me bem porque me libertava e sentia que estava a ganhar auto-estima e estrutura emocional.” Mas não era o suficiente. Vestir-se de mulher não bastava a Daniela.
 
“Pensei nessa altura que o encarnar uma personagem feminina bastaria para me sentir bem, mas depois de conhecer as pessoas que praticam o travestismo, apercebi-me que não era só aquilo porque também eu não me identificava com eles. “Vestirem-se de mulher era suficiente para eles se sentirem bem. Para mim é uma questão de sentir. Os rapazes transmitem coisas que eu cá dento não sinto, enquanto que com as raparigas já sinto, por mais que o teor da conversa seja irrelevante”. 
 
Dos 22 aos 26 anos decidiu experimentar todo o tipo de grupos de amigos e de ralações por desejar pertencer a algum lugar. Já se envolveu com homens, no entanto, só conseguiu manter relacionamentos estáveis com mulheres. Aos poucos foi fazendo pequenas alterações. Demorou anos a ganhar coragem para furar as orelhas e usar brincos mas não conseguia esconder ou evitar mais nada. Decidiu que queria uma transformação total para se sentir bem no corpo. Começou com as mudanças no local trabalho e, de seguida, procurou acompanhamento clínico. Está a ser seguida no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, há mais de cinco meses. E em breve, será também seguida no Hospital Júlio de Matos. 
 
A Lei de Identidade de Género veio a permitir a definição de alguns termos, procedimentos e agentes no processo de mudança de sexo, conferindo assim uma linha orientadora, definidora e protectora desse mesmo processo. Daniela já é chamada por todos desta forma, no entanto, o seu nome no registo ainda se encontra como Daniel. Está ainda na fase inicial de diagnóstico e só quando os médicos concluírem que se encontra apta para a mudança é que pode alterar o nome.
 
AS REACÇÕES. Foi há oito meses que conversou com a mãe: “Contei-lhe que não era algo temporário ou uma fase. Foi um choque inicial para ela, que já se encontrava fragilizada com o divórcio recente.” Daniela deu-lhe o espaço necessário para que se habituasse à filha. Para a irmã, o espanto já não foi tanto embora não conversem sobre isso. “Não tenho muita presença familiar nem os contacto diariamente, estamos todos distantes”. Os amigos por seu turno reagiram cada um à sua maneira. Alguns já sabiam há muito tempo e deram força, outros que já desconfiavam levaram o seu tempo a interiorizar. E outros foram apanhados de surpresa.
 
TRANSIÇÃO Há muito tempo que Daniela espera pelas alterações físicas. As mulheres “transmitem qualquer coisa de forma natural” que ela ainda não consegue. Ainda não iniciou o tratamento hormonal porque as análises estão atrasadas. Ainda está na fase inicial de diagnóstico e tem consciência que será um longo processo até à operação final. A mudança do feminino para masculino, a faloplastia é mais comum: representa 70 dos casos mas, Daniela está em avaliação para se submeter ao oposto: a vaginoplastia: “Estou à espera de resultados das análises que já deviam ter chegado e vou começar a ter consultas no Júlio de Matos também”. Além da alteração genital, Daniela quer muito ter peito: “Estou no banho e sinto que falta qualquer coisa por preencher, é uma sensação física estranha porque a gente não se consegue comparar directamente mas eu sinto isso”.
 
A maior parte das namoradas sabiam do percurso de Daniela mas olhavam-na como um namorado. “Sentia sempre que havia qualquer coisa que não estava plena quer fosse no sexo ou noutra coisa qualquer e assumia o meu papel enquanto rapaz porque para todos os efeitos era assim que era visto”. 
Tinha a sensação que sempre que fazia algo que transmitisse a sua parte feminina, iria ter uma resposta negativa e, por isso, passou a “engolir” o seu lado feminino durante alguns anos. Definia--se como rapaz nas suas relações porque era a expectativa. “Eu nunca estive com uma namorada que fosse lésbica. A Maura é um caso excepcional porque também só tinha estado com homens e, no entanto, trata-me por mulher”.
 
Mas existe alguma ligação entre transexualidade e homossexualidade? Não existe: a identidade de género é um conceito independente da orientação sexual. O que têm em comum é o facto de serem categorias que geram discriminação por parte da sociedade. “Não pensava sequer na ideia de ser potencialmente atraente para alguém, nem me passava pela cabeça. Se não vivia em conformidade comigo como poderia ser atraente para alguém? E se isso fosse possível, sabia que essa pessoa estava atraída por uma ilusão”, conta Daniela. 
Na rua, era olhada com desconfiança porque sabiam que a aparência não combinava com as características físicas. Ainda assim, sentia-se bem, já “tinha interiorizado” que era aquilo que queria”. As pessoas olham para mim e vêem algo aberrante, mas estou aqui porque sou eu mais do que já fui em qualquer tempo. E à minha volta notaram que eu sorria muito mais no trabalho e conseguia criar mais afinidade e ligações”.
 
Já há muitos anos que Daniela não frequenta espaços públicos como balneários ou casa de banho. “Gostava de andar no ginásio mas, recentemente, tive um episódio infeliz.” Treinava antes do trabalho ou à hora do almoço. Aparecia vestida com uma saia e era insultada porque não podia usar os balneários femininos e o mesmo acontecia nos masculinos. Chegou a ouvir nos corredores que nunca seria uma verdadeira mulher. “Foi muito constrangedor e, embora a directora tenha vindo pedir-me desculpa, não tinha condições para permanecer lá”. As dificuldades, conta Daniela, tornaram o seu percurso mais acidentado, mas foi também isso que a ajudou a conhecer--se ao longo dos anos e a gostar de si própria: “Podem não me chamar de Daniela mas no entanto é assim que eu me sinto porra.” Tem consciência de que nunca poderá engravidar mas era um dos seus grandes sonhos e, como tal, coloca a possibilidade de adoptar.
 
Ainda há um longo caminho que Daniela tem de percorrer, mas mais do que isso, há um longo caminho que os outros também têm de fazer, defende. A discriminação é o ponto fraco desse trajecto. “O problema é a falta de informação, o desconhecimento”. Já teve muitos olhares de esguelha e risadas sorrateiras, mas acaba por conseguir filtrá-los porque tem consciência de que a maioria das pessoas “não têm aversão ou maldade”, mas sim, um desconforto ou um receio por aquilo que é desconhecido. A informação é pouca. “Há pessoas más, mas outras dizem coisas por pura ignorância”. E isto é muito simples de explicar: “ Só sentimos empatia quando passamos pelo mesmo, é isso que acontece comigo.”  
 
in ionline, 30 março 2015
 
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