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Ana Zanatti: “Já perdi trabalho por ser quem sou”
2016-02-23
Ana Zanatti: “Já perdi trabalho por ser quem sou”

 São mais de 500 páginas de cartas, e-mails e mensagens de pessoas em sofrimento “com dificuldades em lidarem com a sua orientação sexual”. Tudo recebido e guardado por Ana Zanatti. Pelo meio, a autora revisita os seus diários de adolescente, com as mesmas dúvidas e questões que os jovens de hoje lhe colocam. Mudaram as leis, mas as mentalidades não mudaram assim tanto, sublinha a autora.

A travessia percorrida pelas pessoas LGBT é a linha condutora do livro“O Sexo Inútil” (Sextante Editora), que chega esta terça-feira às livrarias. Em entrevista ao Observador, a autora de 66 anos reflete sobre o preconceito, assume discriminação no meio do espetáculo, revela que houve quem recusasse participar neste livro com medo de prejudicar a carreira e diz que nunca andou escondida.
 
Este livro resulta de uma série de cartas e de e-mails que lhe enviaram. Em particular, de uma rapariga: a Joana.
Sim, uma jovem que me pediu auxílio e com a qual me comecei a corresponder na tentativa de a esclarecer. Em determinada altura, pensei em arrancar com um novo projeto de escrita onde queria refletir sobre a dignidade e o preconceito. Estava a ter acesso a uma história muito recente de alguém que lutava com uma questão de preconceito e a sentir a sua dignidade posta em causa. Perguntei-me se podia ser interessante usar parte dessa correspondência, perguntei à jovem se ela não se importaria que eu usasse excertos e ela disse que não. A partir daí comecei a colher outros testemunhos e o livro foi crescendo.
 
Mas ela começa por lhe escrever com uma dúvida sobre o percurso profissional, porque quer seguir teatro e não sabe se o deve fazer.
Sim, ela também tinha essas dúvidas. Isso não é mentira. Mas por detrás disso havia outras questões.
 
É esse o padrão das cartas que lhe enviam? Começam sempre por outros caminhos?
Geralmente, sim. As pessoas nunca são diretas. Arranjam sempre uma forma indireta de chegar ao assunto, arranjam sempre um subterfúgio. Neste caso ela insistia muito nos livros meus que tinha lido, na identificação com determinadas situações ou com determinadas personagens. Eu percebi que havia ali uma insistência que talvez escondesse outra questão que ela não quis revelar. Eu deixei que ela revelasse quando achou que era o momento certo.
 
A Ana diz que “muitos homossexuais temem ser homossexuais”. Porquê?
Repare: se as pessoas sabem que à volta deles há um olhar que condena e que começa muitas vezes na própria casa, na família, ficam com receio. Ninguém gosta de ser mal visto pelos outros. Ninguém gosta de ser mal olhado pelos outros. E a maior parte das pessoas sabe que esse preconceito existe. Sente-o, de alguma forma. Nas escolas, nos empregos. Uma grande parte dos homossexuais teme o olhar e o juízo das outras pessoas. Porque não quer conviver com essa rejeição.
 
Ou seja, uma pessoa homossexual pode até desejar não ser homossexual.
E porque é que isso acontece? Porque sabe que quem é diferente é olhado de forma diferente. É como me dizia esta rapariga várias vezes: “quem me dera ser igual a todos os outros. Porque assim ninguém reparava em mim”. E não é reparar no bom sentido, é reparar no sentido de apontar o dedo. Nós próprios também temos de fazer a nossa quota parte do trabalho. Ou seja, temos de fortalecer a nossa estrutura para estarmos seguros de quem somos e de que isso não traz mal ao mundo. Estarmos em paz com a pessoa que somos. E no momento em que estamos em paz com o que somos, nada nem ninguém nos vai perturbar.
 
Numa entrevista, a Ana disse que se “contam pelos dedos” as figuras públicas que assumem a sua homossexualidade.
É verdade. Houve algumas pessoas que eu quis incluir aqui neste livro com o nome delas e elas disseram-me “não”. Ou porque as famílias não sabem, ou porque isso ia ser um choque para as famílias se eles falassem publicamente dessa questão, ou porque temem represálias em questões profissionais. Temem que a imagem deles ou delas possa sofrer com o facto de revelarem a sua homossexualidade.
 
Mesmo tendo já uma carreira consolidada?
Às vezes, quanto mais consolidada, pior. Porque têm mais medo que aquilo que já conquistaram se possa desmoronar. As pessoas temem que esse edifício possa ruir ou que possa ficar mais vulnerável. Tenho pena que isso aconteça, por elas, mas respeito.
Mas também sou absolutamente contra que haja grupos ativistas LGBT a denunciar pessoas que têm cargos públicos e carreiras públicas. Que venham dizer que este ou aquele é homossexual. Acho isso terrível. Devem ser as pessoas a dizê-lo.
 
Alguma vez perdeu algum trabalho por ser quem é?
Sim.
 
Qual foi a justificação que lhe deram?
Nenhuma.
 
Como é que a Ana sabe que foi por isso?
Sabia. Não vou entrar em detalhes sobre as histórias. Mas a resposta é sim.
 
Como é que se lida com isso?
Obviamente que são situações que não agradam a ninguém. São revoltantes. Mas foram situações que, ao contrário de me deitarem abaixo, estimularam-me. Estimularam-me para me esconder ainda menos, para negar ainda menos a pessoa que sou. O filme “Carol” é um grande exemplo de uma pessoa que não deixa que a sua dignidade seja abalada perante circunstâncias muito adversas.


Quando a Ana assumiu em 2009…
Eu não assumi nada em 2009. Toda a minha vida convivi com a pessoa que sou.
 
Em 2009 a Ana participou no Movimento pela Igualdade no acesso ao Casamento Civil e, na apresentação, leu um texto em que disse: “Estou a reclamar os meus direitos como cidadã” e afirmou que não aceitava “perder direitos por ser uma minoria”.
Eu nunca andei escondida. Nunca escondi nada de mim em toda a minha vida. Não ando a fingir que sou de uma maneira e na verdade sou de outra. Não me apresento com determinadas pessoas para tapar alguma coisa. Não tenho nada a esconder, mas também não tenho nada para exibir. Sou uma pessoa como todas as outras.
Fui dar a minha voz quando essa questão se levantou para tentar contribuir para que essa lei fosse aprovada. O texto que li no cinema São Jorge foi o mesmo texto que li quando lancei o meu livro “Os Sinais do Medo”. Se isso serviu para alguma coisa, ótimo.
Desde que eu comecei a ter uma profissão pública, sempre ligaram esse assunto a mim. Não é desde 2009. Fui tentando salvaguardar o meu espaço — aquele onde eu não quero que as pessoas entrem.
 
Logo a seguir levou com uma chuva de telefonemas e de pedidos de entrevista…
Exatamente. E com 40 anos de carreira, só nessa altura é que surgiram os ditos jornais e revistas mais credíveis a pedirem-me uma entrevista sobre o assunto. Até à data nunca ninguém me tinha pedido. Tinha havido alguma imprensa a querer meter o nariz onde não era chamada, para falar de uma forma corrente. Mas para falar seriamente do assunto, nunca ninguém me tinha abordado.
 
Porque as pessoas que a tinham questionado antes queriam saber os pormenores mais “mórbidos”, como a Ana diz.
Exatamente. E isso a mim não me interessa. Não gostaria muito de centrar estas entrevistas na minha história pessoal porque este livro não é sobre mim. Embora isso possa vender menos. Só entro aqui como testemunho porque, a determinada altura, senti necessidade de ir ver os meus diários. “Esta miúda agora, em 2012, está a viver isto. Como é que eu atravessei isto? O que é que eu disse? O que é que eu escrevi?”, pensei. Porque sabia que tinha guardado os meus diários. E quando os fui ler, comecei a partilhar alguns excertos dos meus diários com ela. Depois achei interessante incluir no livro a ideia de que, apesar de a Lei ter avançado, as mentalidades não vão à mesma velocidade. A forma de pensar de muita gente ainda está igual ou parecida àquela que havia há 40 anos.
 
A Ana diz que “entre o tempo dos seus avós e o de hoje não há assim tantas diferenças” em termos de mentalidades.
Ainda há muitas mentes por abrir. Não só por abrir mas também por esclarecer. Há muita falta de esclarecimento. As pessoas sabem pouco sobre como é que estas questões são vividas. Um jovem que é homossexual e está numa família que é homofóbica, que questões é que levanta? As pessoas não têm a noção disso. Mas isso pode acontecer a qualquer um.
Qualquer pessoa pode hoje vir a ter um filho homossexual, pode vir a deparar-se com um irmão que é homossexual, aqueles que já são pais podem ter uma questão dessas, um casal pode separar-se porque um resolve assumir a sua verdadeira sexualidade porque já não aguenta mais viver uma farsa e esteve escondido ao longo de anos — e há muitos casos desses. Aliás, no livro relato alguns. Isto é uma questão que atravessa toda a sociedade. Isto é um livro para todas as pessoas porque todas as pessoas, mais tarde ou mais cedo, se deparam com uma questão destas. E convém que saibam lidar com isto.
 
Tenho aqui alguns excertos do livro que gostava que comentasse. Diz a Ana: “Também eu, na adolescência, não percebia bem o que se passava comigo. As amigas a falarem de rapazes e eu, sem entusiasmo, lá participava nas conversas.”
Eu refiro isso no livro porque a jovem me diz várias vezes que se sente muito desenquadrada, como muitos jovens. Quando um jovem sente ou sabe que é homossexual, e no seu grupo de amigos a maior parte está a falar sobre as namoradas, ele não sabe muito bem o que é que há de dizer. Teme ser vítima de troça e de algum olhar de soslaio e cala-se. Acaba por ficar mais inibido e sente-se mais solitário.
Depois de lhe contar que tem uma namorada, a Joana diz-lhe: “Nos sítios públicos, a Sara e eu agimos como se fossemos só amigas. Mas um beijo rápido demora tão pouco que ninguém tem tempo para reparar e ativar os ‘mecanismos do preconceito’, pois não, Ana?”
É o o medo que ela tem, e que muitas pessoas têm, de ter manifestações públicas que podem chamar a atenção.
 
Hoje ainda não é bem visto duas mulheres ou dois homens terem manifestações públicas de carinho?
Depende dos olhares. Há quem passe e não ligue nenhuma. Assim como um casal de homem e mulher se podem beijar e ir de mão dada, é natural que dois rapazes ou duas raparigas vão de mão dada ou se beijem. Mas nem toda a gente tem esse entendimento.
Nós temos um povo que até é bastante pacífico. Não se manifesta muito. No fundo, as pessoas até podem ter um olhar crítico sobre o que viram, mas não o manifestam. Depois comentam em casa; se forem na rua acompanhados com alguém podem fazer assim com o braço [faz o gesto de bater com o cotovelo na pessoa ao lado], mas tudo disfarçadamente.
 
Outro excerto. “A Sara disse-me que, no fundo, o que queria mesmo era estar apaixonada por um rapaz, para deixar de ouvir os pais, especialmente a mãe, que umas vezes faz de conta que não sabe, outras massacra-a”.
Pois, porque isso evitava-lhe ter problemas com a família e ser confrontada com olhares reprovadores de outras pessoas. Aparentemente para ela era mais fácil que não fosse nada assim. “Pronto, passamos aqui uma esponja por cima disto tudo, eu afinal não sou nada disto e ninguém vai implicar comigo”. Mas isso é estarmos a fugir de nós mesmos. Não temos que fugir de nós, temos é de saber viver connosco. Há muita gente que vive a vida toda com a orientação sexual escondida e que tem vidas duplas. Eu sei de muitos casos desses.
 
A Ana diz que “aceitar” não é admissível porque aceitar pressupõe “tolerar” e “tolerar não é incluir”.
Pois. Eu não me lembro de ouvir dizer que alguém aceita determinado ator porque ele é heterossexual. Acho que falar em “aceitação” é discriminatório. Mas acho que as pessoas hoje fazem menos alarido se um determinado ator vier falar da sua homossexualidade ou bissexualidade. Já estão mais habituadas a conviver com esses assuntos do que há 40 anos.
As pessoas ouvem falar nos telejornais e veem nas telenovelas e acham “sim, tudo muito bem, eu sou muito moderna e aceito muito bem e entendo tudo muito bem”. Mas isso não quer dizer que, quando toca em casa deles, tenham capacidade de entender e de lidar com isso. Nem sempre é assim. Há pessoas que aparentemente têm uma forma de estar muito aberta, mas se depois têm um filho homossexual cai-lhes o mundo em cima. Hoje em dia até parece mal mostrarmos que somos retrógrados, mas quando o assunto se passa connosco, já não é bem assim.
 
Uma pergunta da Joana para si: “Se a Ana estivesse no meu lugar, frustrada e desesperada, com uns pais que só falam em namorados, o que fazia?”
Eu nunca respondia às perguntas dela quando ela me pergunta o que eu fazia no lugar dela. É ela que tem de tomar as suas decisões e fazer o que entender, responsabilizando-se por aquilo que faz. Eu disse-lhe muitas vezes: “Quando o teu pai e a tua mãe se escolheram um ao outro, foram eles que escolheram. Já lá vai o tempo em que os pais é que escolhiam os noivos e as noivas e em que os casamentos eram arranjados”. Isso tudo já acabou. Naquela idade estamos muito na dependência dos pais e queremos muito agradar-lhes. Não queremos dececioná-los. Temos dificuldade em confrontá-los com determinadas coisas.
 
Há algum Sexo Inútil?
Aos olhos dos outros, sim. Esse foi o título que me surgiu precisamente pela forma como se começou a culpabilizar todo o sexo que não procria. Tudo o que está relacionado com o prazer e não procria, não tem utilidade. O ato sexual tem função reprodutora, é uma coisa que está legitimada, por assim dizer. Tudo o que tem a ver apenas com o prazer, com o erotismo, é condenado.
 
in Observador, 23 fevereiro 2016
 
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