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Paulo e Daniel são agora Alexandra e Daniela. Conheça-as.
2016-03-20
TRANSEXUALIDADE
Há cinco anos entrou em vigor uma lei que permite uma cidadania plena aos que queiram mudar de nome e de sexo no registo civil. Esta semana o Notícias ao Minuto celebra a lei com as histórias de Paulo e Daniel, que assumiram na sua plenitude o género feminino.
 
A lei 7/2011, publicada em Diário da República a 15 de março, permite a essas pessoas serem chamadas pelo nome com que se identificam.
 
Com caminhos e histórias diferentes, altos e baixos, estes dois homens que perceberam que tinham um lado mais feminino, mostram-se felizes com a opção de serem hoje a Alexandra e a Daniela. Na primeira pessoa contam como foi passar por toda esta experiência.
 
O caso atípico e o recente
 
Alexandra Paulo considera-se um caso diferente. Isto porque demorou algum tempo a tomar a decisão, mais precisamente quatro anos. Mas fê-lo na altura que achava certa. Hoje, com 50 anos, completados no passado dia 12 de março, Alexandra mostra-se uma mulher confiante e feliz por toda esta jornada.
 
“Tive um percurso de vida dentro da normalidade e sabia que até 2011 [altura em que a lei entrou em vigor], as pessoas debatiam-se com sérios problemas. Com esta lei tudo ficou muito mais facilitado. Hoje somos cidadãos plenos”, afirma.
 
Os pais queriam chamá-lo Paulo Alexandre, mas a opção acabou por recair em Paulo. Por gostar muito do nome Alexandre, optou por ter os dois nomes, de forma a que representasse todo este processo. ”Foi uma batalha porque não me queria separar do Paulo”, conta.
 
Já para Daniela Bento, de 29 anos, o processo é recente. Só há duas semanas é que fez a mudança de nome.
 
A caminhar para o corpo 'certo'
 
A jornada de Alexandra começou aos cinco anos, depois de perceber num ambiente familiar que preferia as bonecas aos carros de brincar, que o seu pai já falecido trazia em miniatura uma vez que a sua profissão era comerciante de automóveis.
 
“Começou logo na infância. Comecei a aperceber-me que era um menino mas que na realidade tinha a preferência feminina.(…) Brincava com bonecas, mas também tinha miniaturas de carrinhos. Vi realmente que havia algo de diferente em mim. Sentia-me desenraizada, era mais reservada, mais introvertida”, adianta.
 
Já Daniela, que ainda não fez a mudança de sexo, nunca sentiu que estava no ‘corpo errado” até porque “gosta do corpo que tem”, mas sente que “existem determinadas características que não se adequam na forma” como se sente confortável.
 
Como podem os pais reagir a esta mudança
 
Daniela conta que a sua mãe tomou “conhecimento há nove anos”. “Mas foi um primeiro contacto, quando eu tentava explorar questões de expressão de género. No entanto, até pela própria falta de informação que eu tinha, não consegui explicar da devida forma. Surgiu na forma de uma ideia, uma fase que iria passar”, diz, garantindo que no essencialmente, a sua família respeita as suas opções, o que “já é suficiente” para si.
 
Tarde mas na altura certa, Alexandra revela que chegou a uma altura “em que era inevitável” e que teve uma conversa com a sua mãe – não chegou a ter com o pai -  em que explicou todo o processo. “É lógico, não vou dizer que a minha mãe ficou muito contente, até porque é uma senhora já com uma idade avançada. Mas acompanhou todo o meu processo, viu sempre que eu era uma criança muito feminina, com tudo aquilo que conhecia não foi um choque. A minha mãe deu-me e dá-me todo o apoio. Acompanhou-me em todas as cirurgias. O que me disse foi: ‘Estou contigo independentemente do género que tenhas, das escolhas, sou tua mãe e amo-te’”.
 
Na adolescência, mais altos do que baixos
 
Ainda sobre o seu percurso, Alexandra diz que era andrógeno – traços e características masculinas e femininas, quer ao nível físico, quer ao nível psicológico  - e, por esse motivo, teve imensos problemas no liceu, “relacionados com discriminação, bullying”. “No fundo a discriminação é uma constante. Não vivo infeliz e revoltada. Temos que lutar e relativizar algumas situações”, sublinha.
 
Contudo, considera que “os adolescentes são cruéis”, mas que os seus progenitores foram uma grande ajuda porque “sempre estiveram presentes” e falavam “com os diretores de turma”. Mas Alexandra revela que “não desabafava “ muito e “não dizia exatamente aquilo que acontecia”.
 
“Na sociedade em que vivemos a violência de género está demasiado normalizada, faz parte do padrão de vida social. É uma estrutura e um problema demasiado enraizado. Já tive situações de discriminação diretamente associados ao facto de ser transexual, já tive desconforto entre amizades e momentos em que senti medo de andar na rua”, acrescenta Daniela.
 
Cirurgias e Sistema Nacional de Saúde (SNS)
 
Daniela teve ajuda do SNS, depois de em 2014, com 27 anos, ter tomado a decisão. “Foi preciso entrar no sistema, conseguir uma consulta em sexologia clínica pode demorar muito tempo, no meu caso foram alguns meses. Depois é necessário o acompanhamento na psiquiatria, tanto por um médico como por um psicólogo. É necessário fazer testes psicológicos. No meu caso, já tive autorização para mudar o nome e iniciar a terapêutica hormonal. Dada uma primeira avaliação clínica por uma equipa multidisciplinar é necessária uma segunda avaliação (que ainda terei de ter) e depois um aval da Ordem dos Médicos para ter acesso a procedimentos clínicos como cirurgias… E ir para a lista de espera”, descreve.
 
Daniela refere que não está a ter custos neste momento, sem contabilizar a medicação, “porém é uma forma extremamente lenta e tortuosa de progredir”. Mas é o seu único caminho já que “é difícil manter alguns custos no privado. E isso é um problema grave” para pessoas mais desfavorecidas que ficam imenso tempo à espera, o que “gera extrema ansiedade somada àquela que já existe por natureza”.
 
 Alexandra, só há quatro anos é que decidiu dar início a todo um processo moroso e custoso. Não teve acesso ao apoio do SNS e foram as suas poupanças que lhe permitiram fazer três cirurgias múltiplas para chegar ao corpo que tanto desejava. Sem empréstimos e recorrendo sempre ao privado, Alexandra acredita que Portugal tem de melhorar “urgentemente a assistência médica e cirúrgica com médicos reconhecidos”.
 
“Todas as consultas de psiquiatria, endocrinologia, psicologia e as cirurgias plásticas foram feitas em hospitais privados. É um custo alto, mas depende de pessoa para pessoa. Há inúmeras cirurgias que podem ser feitas”. Uma mamoplastia de aumento, mudança de sexo, cirurgias de feminização facial, estes são alguns dos procedimentos necessários à mudança. Além de que se têm que provar através de um relatório elaborado por um psiquiatra que sofrem a “perturbação de identidade de género para começarem a tomar as hormonas”, informa.
 
Um negócio pioneiro e a programadora
 
Alexandra que tentou ser “o mais normal possível por causa da própria sociedade” revela que durante estes anos teve “duas batalhas”. “Uma interior e outra para levar a cabo um negócio” seu, já que é proprietária de uma sauna mista, aberta a todas as pessoas, considerando as suas diferentes orientações sexuais.
 
Mas esse negócio é rentável há cinco anos. Quem não acreditava que fosse possível numa sociedade, que muitas pessoas consideram ‘fechada’, acabou por se enganar e muitos são os clientes que recebe. Hoje “louvam a sua força e coragem”.
 
Daniela enveredou pelo caminho da programação e neste universo “a aceitação tem sido boa”. “Acho que não tive problemas de maior até ao momento onde estou”. 
 
Um caminho que merece ser vivido por quem assim o deseja
 
“As pessoas têm que ter força e coragem mas acima de tudo têm que amadurecer a ideia. Devem pensar se realmente é aquilo que querem e depois devem avançar para o processo. De forma a vencer todas as batalhas. Eu tive força e coragem. Consegui”, sublinha Alexandra.
 
Para Daniela, todo este processo é “um desafio de sobrevivência” e todo o seu caminho foi “importante” para a sua construção “pessoal enquanto pessoa”. “Decidir é viver. E quando o objetivo e o percurso trás felicidade…”. Três pontos que deixa para outros completarem com as suas interpretações.
 
“Sou hoje um reflexo da minha continuidade enquanto pessoa desde o momento em que nasci. Houve, talvez, momentos que poderia ter gerido de uma outra forma, mas na essência, descobrir várias questões construiu-me. E hoje sou a Daniela”.
 
In Notícias ao Minuto, 20 de Março de 2016
 
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