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"Tinha de decidir se queria ser aluno do Colégio Militar ou homossexual"
2016-04-23

 O meu primeiro beijo foi a um colega do Colégio Militar numa viagem de estudo ao Alentejo. Tinha 15 anos. Foram meses até ganhar coragem para aproveitar a oportunidade, sem uma única palavra. A debater-me com sentimentos proibidos. A esconder um afecto que os outros alunos consideravam criminoso. 

 
Foi um beijo único, que deu início a uma relação que durante os anos seguintes escondi da instituição. E que cresceu fora das portas do colégio. Fazíamos os dois programas aos fins-de-semana e à quarta-feira à noite, quando os alunos do internato podem ir dormir a casa. Os outros colegas viam-nos apenas como amigos. Nas aulas e nos recreios não nos aproximávamos um do outro. Havia o terror de sermos descobertos.
 
Percebi que a homossexualidade era uma coisa má logo aos 10 anos, quando entrei para o Colégio Militar. Estava proibida por um código de honra não escrito ensinado aos estudantes. Um código onde roubar, drogar-se e ser homossexual eram três actos imperdoáveis. Princípios passados aos alunos mais novos como eu pelos estudantes graduados, no 12.º ano, que estão na base da tradição orgulhosamente transmitida de geração em geração na instituição centenária, lado a lado com outros valores como a rectidão, a lealdade ou verdade. 
 
Por isso, fiquei angustiado e confuso quando aos 13 ou 14 anos comecei a aperceber-me dos meus desejos homossexuais. Achei que era um criminoso. Só pensava que tinha de fazer tudo para travar esses sentimentos, para mudar. Na minha cabeça uma coisa era clara: havia uma escolha que me estava a ser imposta. Tinha que decidir se queria ser aluno do Colégio Militar ou ser homossexual, pois ali nunca poderia ser as duas coisas. Escolhi ser aluno. 
 
Vivi sempre com o medo de ser descoberto na instituição militar, de onde saí no final do 12.º ano, em 2008, com a honra de ser porta estandarte, uma distinção que em regra só é atribuída aos melhores estudantes do curso. Nunca ninguém desconfiou. Ninguém espera que aconteça ali. Mas aconteceu. Lembro-me que houve alunos excluídos e desprezados por serem homossexuais no ano lectivo de 2004/2005. Eu estava no 9.º ano, quando me disseram que dois colegas do 7.º ano tinham sido apanhados em actos homossexuais. Os afectos estão proibidos pelo regulamento interno dos alunos do colégio. A história foi abafada. Os pais dos dois alunos foram chamados. Os estudantes saíram da instituição no próprio dia. Na manhã seguinte já não estavam no pequeno almoço. Nunca mais os vi.
 
Naquele dia pensei que também eu iria ser descoberto. Que os alunos mais velhos, os professores, os directores iam conseguir ler-me os pensamentos. E dizer aos meus pais. Criei uma camuflagem. Quando me insultavam, chamando-me palavrões como "paneleiro", fingia que isso não me afectava. Sempre que se falava de gays disfarçava e respondia aos meus colegas: "desde que os paneleiros não se metam comigo, está tudo bem".
 
Hoje acredito que este código homofóbico no colégio me roubou uma adolescência igual à dos outros. Os colegas podiam apaixonar-se sem ser em segredo, sem pensar que havia neles havia algo de errado. Eu não. Só assumi a minha homossexualidade aos 20 anos para os amigos e a família. Hoje vivo na Austrália e quero contar a minha história porque acredito que a instituição militar deve mudar. Não odeio o colégio. Eu amo o colégio e é por isso que defendo que a instituição tem de aceitar e proteger os seus alunos homossexuais.  Não é com proibições e exclusões que o Colégio Militar deve responder aos alunos. Deve sim aceitá-los e integrá-los.
 
Depoimento recolhido por Joana Ferreira da Costa
in Público, 23 abril 2016
 
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