Noticias

logo ILGA

Notícias: Nacionais

Homofobia: “Sermos desprezadas por tanta gente uniu-nos mais”
2016-05-17
Homofobia: “Sermos desprezadas por tanta gente uniu-nos mais”

 Chegou a viver na rua 10 dias. “Foi muito mau. Há pessoas que vêem uma mulher na rua e têm aquela mania de dizer: uma mulher arranja dinheiro fácil. A mim aconteceu-me. Estava cheia de fome, pedia dinheiro, as pessoas não davam, diziam-me que tinha bom corpo, que podia ir para a prostituição.”

 
Sentia-se responsável pela companheira. “É muito bonita e estava muito fragilizada. Muitos homens olhavam para ela. Se algum se aproximava, eu punha-me à defesa, tinha uma reacção brusca. Onde ia buscar força? À minha fé. À minha fé e ao meu amor. Pedia a Nossa Senhora de Fátima que nos protegesse. ”
 
Portugal está entre os países que mais respeitam os direitos de lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e intersexuais, de acordo com o ranking anual da ILGA-Europa divulgado no princípio do mês. Portugueses e espanhóis (67) são os que menos se preocupam com a orientação sexual da vizinhança, indica um novo estudo feito em 65 países, que será divulgado por essa organização esta terça-feira, Dia Internacional Contra a Homofobia e a Transfobia. Todavia, ao que se lê num relatório publicado pelo Eurobarómetro em Outubro, pouco mais de um terço continua a achar que há alguma coisa de “errado” numa relação entre pessoas do mesmo sexo (média da União Europeia é 58).
 
Maria do Carmo Sousa, agora com 43 anos, cresceu numa terra mais antiga do que a nacionalidade: Oliveira do Douro, uma freguesia rural do concelho de Cinfães, na margem esquerda do rio. “Eu gostava de mulheres e isso era coisa muito mal vista por lá. Fugi para o Porto aos 30 anos.”
 
Enquanto viveu na aldeia, não conheceu namoro. “Metia-me confusão estar com homens. Tinha amigos, brincava com eles, dançava. Quando percebia que algum gostava de mim, afastava-me. Iam fazer queixinhas às minhas irmãs. Elas vinham chatear-me. ‘Aquele rapaz é bom, não sei quê.’”
 
Alergia a rapazes
Certo domingo, um rapaz com quem costumava conversar, sentou-se com ela ao sol, começou a falar-lhe em casar e em ter filhos e tentou beijá-la. Carmo adoeceu. “Tinha tanta comichão. Coçava-me toda. Fiquei com o corpo cheio de bolhas. Fui ao hospital. O médico disse que era uma reacção alérgica.”
 
Sentia-se muito sozinha no seu segredo, mas não se atrevia a abrir caminho até outras mulheres com a mesma orientação sexual. “Achava que não tinha direito de amar outra mulher. Se não tinha conquistado o amor da minha mãe, também não ia conquistar o amor de uma esposa.”
 
A mãe nem sonhava com a sua orientação sexual, mas nunca gostou dos seus modos arrapazados. Enquanto pôde, tentou moldá-la. “Éramos como cão e gato. Conquistei o amor dela aos 25 anos.” Fora-lhe diagnosticada doença de Alzheimer e Carmo dispusera-se a cuidá-la. “Ela esqueceu-se que eu era filha dela. Conhecia as minhas irmãs, os meus irmãos, a mim não, a mim chamava-me mãe, mas, quando ela me abraçava, eu sentia o amor de mãe. Depois, a doença dela agravou-se e eu comecei a amá-la como se ela fosse minha filha. E isso tudo me ajudou. Ajudou-me a perceber que tinha direito a ser amada, como os meus irmãos…”
 
Não ficou com a mãe até ao fim. Os irmãos tinham prometido pagar-lhe. “Começaram a fugir. Cismavam que o meu pai tinha de partir a terra. E o meu pai dizia que não ia fazer isso à minha mãe. E eles deixaram de me ajudar financeiramente. E eu estava ali a fazer tudo. Comecei a dizer: ‘Assim não dá!’ E tive muitos problemas com o meu pai. Quando ele descobriu que eu gostava de mulheres, quando eu assumi mesmo, ele não gostou da ideia e começou a fazer muitas asneiras.”
 
Talvez tivesse permanecido na aldeia até a mãe morrer, se o pai não se tivesse tornado agressivo, se os irmãos continuassem a dar-lhe algum dinheiro, se não tivesse entrado em choque com uma irmã. Sentiu-se expulsa pelo pai. “E já estava decidida a ter uma vida sentimental.”
 
Por ali abaixo
Decorria 2003. Esteve sete meses a trabalhar como empregada doméstica no Porto. “Primeiro trabalhei em casa de uma senhora. Depois trabalhei em casa da mãe dela. Dormia lá no fim-de-semana, ela queria que eu dormisse todos os dias. Ela queria ter uma empregada interna, mas eu queria ter um trabalho, uma casa, uma vida amorosa, não? Saí. Fui para o Algarve viver com a minha namorada.”
 
Conhecera duas mulheres através de um anúncio. A partir dessas, outras. Por telefone, conversara muito com uma oriunda de São João da Madeira, então a trabalhar no Algarve, e apaixonara-se. “A forma como nos juntámos, o facto de sermos desprezadas por tanta gente, tudo isso uniu-nos mais, fortaleceu o nosso amor.”
 
Pouco estiveram no Algarve. A namorada num instante ficou sem trabalho. De volta ao Porto, não conseguiram mais do que biscates. A família da namorada não aprovou a relação com Carmo. Só uma tia se dispôs a ajudá-las a pagar a renda. Deixou de fazê-lo mal lhe disseram que a sobrinha gastava dinheiro em bebida. “O dinheiro que eu tinha ganho desse mês não dava para pagar o quarto – faltavam 15 euros. Fomos para uma pensão. Quando o dinheiro acabou, ficamos na rua.”
 
Foram dez dias de desespero. Tinha saído de casa há pouco mais de um ano para ter uma vida completa, encontrara a pessoa com quem queria passar o resto da vida e estava a dormir na rua. Primeiro, arrumaram-se junto a uma caixa multibanco. Depois, encontram um vão de escada de uma loja desactivada. “Eu levava papelões. Punha os papelões à frente. Era o abraço. Era o aconchego. Mais intimidade não havia.
 
Iam comer à Porta Amiga da AMI no Porto, que intermediou o contacto com a tia e accionou a Segurança Social. “No princípio, nem o Rendimento Social de Inserção a gente tinha. Para isso era preciso morada e a gente não tinha morada. Ajudavam-nos a pagar o quarto. E nós íamos tirando cursos – contabilidade 50 horas, computador 50 horas e assim – para ter algum dinheiro.”
 
Os cursos não serviam apenas para ajudar a “ir pagando coisas”. Carmo saíra da aldeia com o 4.º ano de escolaridade e a auto-estima num farrapo. Em 2012, nove anos e sabe lá ela quantos cursos depois, tinha equivalência ao 12.º ano. “Aprendi muitas coisas úteis. Nos cursos, aprende-se sempre coisas úteis”, diz.  
 
Era de uma timidez capaz de a emudecer. Perdeu o medo de falar em público. Ganhou vocabulário, desenvoltura.  Recuperou ritmo de trabalho, sentido de responsabilidade. Não se cansa de agradecer à técnica da Segurança Social, Olga Rocha, e à psicóloga da Cais, Cláudia Fernandes. “Estou bem agora, graças a Deus.”
 
Começou por cumprir um Contrato Emprego Inserção, um programa do Instituto do Emprego e Formação Profissional reservado a desempregados que beneficiam de rendimento social de inserção: esteve um ano a trabalhar num projecto da CAIS destinado a reduzir o desperdício e a transformar vidas.
 
Já estava inscrita na Plataforma Emprego, vertente do Núcleo de Planeamento e Intervenção em Sem Abrigo do Porto, que procura ligar empregadores e cidadãos com experiência de vida de rua. A todos pareceu que estava apta para entrar no mercado de trabalho não subsidiado. Olga Rocha disse-lhe que “não podia parar, perder ritmo”. Enquanto nada surgia, Carmo manteve-se na Cais, a título de voluntariado, e frequentou um curso de vendas de curta duração.
 
Tremia quando foi à entrevista na Associação dos Albergue Nocturnos do Porto. Foi uma das primeiras pessoas a serem colocadas pela Plataforma Emprego, a braços com uma população com baixa empregabilidade – desde que foi criada, em 2013, colocou 13 pessoas em mercado formal de emprego e 8 em mercado social de emprego e está a trabalhar competências de outras 25 a 30.
 
“Pensava que não ia ficar”, diz. “Eles têm espírito de ajudar pessoas em dificuldades.” Faz limpeza geral. Já não está à experiência. Já tem contrato sem termo. “Se me portar bem, vou ficar toda a vida a trabalhar. Já consigo pagar a renda, a água, a luz. Para a comida ainda precisamos de apoio.”
 
Direito à felicidade
Ainda vai buscar as refeições à Casa da Rua, da Santa Casa da Misericórdia do Porto. E ainda frequenta a Cais, onde a psicóloga Cláudia Fernandes continua a ajudá-la a encontrar formas positivas de encarar a vida. “Enquanto não assumi que gostava de mulheres, era uma pessoa muito infeliz. Não me sentia bem comigo. Quando assumi, tornei-me mais alegre, mais divertida, com mais auto-estima. Já não preciso de esconder nada. Quem quer, quer. Quem não quer, não quer.”
 
Uma vez, numa entrevista de emprego, perguntaram-lhe pela orientação sexual. “Gosto de mulheres, porquê? Então já está excluída”, reproduz. “O país mudou, mas ainda há gente que não aceita”. Não é por isso que Carmo se vai esconder. “Se assumi foi para ser feliz, não foi para os outros.”
 
A mãe morreu sem saber. O pai nunca consentiu. “Ele dizia que nunca me tinha perdoado ter deixado a minha mãe para estar com uma mulher. Fez tudo para eu deixar a minha mãe, mas nunca me perdoou. Talvez ele quisesse que eu fosse diferente. Ele dizia que pensava que eu nunca ia abandoná-los, que eu ia fazer tudo por eles. Fiquei até um dia. Também tinha direito à felicidade.”
 
in Público, 17 maio 2016
 
logotipo do facebook logotipo do twitter logotipo do delicious
PESQUISAR NOTÍCIAS
NOTÍCIAS
2018
Janeiro
2017
Setembro
Agosto
Julho
Junho
Maio
Abril
Março
Fevereiro
Janeiro
2016
Dezembro
Novembro
Outubro
Setembro
Agosto
Julho
Junho
Maio
Abril
Março
Fevereiro
Janeiro
2015
Dezembro
Novembro
Outubro
Setembro
Agosto
Julho
Junho
Maio
Abril
Março
Fevereiro
Janeiro
2014
Dezembro
Novembro
Outubro
Setembro
Agosto
Julho
Junho
Maio
Abril
Março
Fevereiro
Janeiro
2013
Dezembro
Novembro
Outubro
Setembro
Agosto
Julho
Junho
Maio
Abril
Março
Fevereiro
Janeiro
2012
Dezembro
Novembro
Outubro
Setembro
Agosto
Julho
Junho
Maio
Abril
Março
Fevereiro
Janeiro
2011
Dezembro
Novembro
Outubro
Setembro
Agosto
Julho
Junho
Maio
Abril
Março
Fevereiro
Janeiro
2010
Dezembro
Novembro
Outubro
Setembro
Agosto
Julho
Junho
Maio
Abril
Março
Fevereiro
Janeiro
2009
Novembro
Setembro
Agosto
Julho
2006
Julho
Junho
Contacto e Sugestões | Avisos Legais | English