Noticias

logo ILGA

Notícias: Nacionais

Inês Pedrosa: O preconceito contra os homossexuais
2010-06-09

A visita do Papa parece ter gerado em índoles esmorecidas a fantasia de que Portugal seria uma sucursal do Vaticano. O frenesim de intelectuais que matutavam se deviam ou não beijar a mão ao senhor (pergunta, afinal, desnecessária, que a mão papal é mais inacessível do que pode parecer), os ateus subitamente enlevados com a beleza do altar à beira-rio - tudo isso terá criado na Igreja Católica a tentação de comentar as leis da nação civil. Assim, D. José Policarpo apareceu a criticar a aprovação do diploma pelo Presidente da República, dizendo que se o Presidente tivesse usado o veto "ganhava as próximas eleições". Temos pois o cardeal-patriarca a exercer as funções de politólogo. E alguns sectores católicos da Direita tocaram a reunir para a vingança, procurando um candidato alternativo a Cavaco Silva. É tempo de lembrar algumas verdades cristãmente chãs a estes católicos alvoroçados: em primeiro lugar, a vingança é um acto feio e, em geral, de infaustos desenlaces (mesmo na vida terrena - porque em termos de vida eterna é um desastre); em segundo lugar, ninguém impede a Igreja Católica de proibir o sagrado matrimónio aos homossexuais: isso é uma questão que os homossexuais católicos terão de resolver consigo mesmos ou com a sua Igreja; em terceiro lugar, numa sociedade democrática e laica a vida privada de cada um é com cada qual, e não cabe ao Estado decidir a organização das famílias. E não, santas almas, a poligamia não colhe - para começo e fim de conversa, porque não é um sistema democrático.

O que choca uma parte dos católicos (porque nem todos são assim; há-os tolerantes e respeitadores do amor dos outros, independentemente de sexos) e também os sectores da sociedade mais agarrados ao cobertor da tradição é a possibilidade de se constituírem famílias em que os progenitores não correspondam aos convencionais papéis de pai e mãe. Como explica Teresa Pizarro Beleza no excelentíssimo prefácio ao livro de São José Almeida "Homossexuais no Estado Novo" (edição Sextante): "A habitualmente indiscutida complementaridade dos sexos feminino e masculino esconde mal uma diferenciação vertical, de primazia... e de autoridade. O casamento foi, até hoje, se excluirmos a prática da escravatura, a forma mais perfeita de domesticação e subordinação das mulheres". O estudo agora publicado sobre o "Homicídio Conjugal em Portugal", realizado por Elza Pais, conclui que a percentagem de cônjuges assassinados aumentou, na última década, mais de 40 por cento - sendo que as percentagem de mulheres que assassinam os maridos baixou em 5 por cento. Sabemos também que a grande maioria dos abusos sexuais acontecem dentro da família - designadamente, de pais sobre filhas ou filhos. Como é possível que saibamos tudo isto e continuemos a pensar na família tradicional como o paraíso na terra? Como é possível que saibamos tudo isto e continuemos a discriminar as pessoas em função da sua orientação sexual? Como é possível que pessoas que se arrogam defensoras de valores morais, acumulando a esses valores princípios políticos e económicos liberais, pretendam regulamentar a vida dos outros a partir das práticas sexuais? O amor não dirá nada a estes carnalíssimos espíritos?

No prefácio ao livro de São José Almeida - uma obra fundamental para percebermos os guetos para que foram empurrados os portugueses que se apaixonam por pessoas do mesmo sexo - escreve ainda Teresa Pizarro Beleza: "A seguir, dizem os alarmados cidadãos moralizadores, virá a adopção, a perfilhação, a filiação. Mas é claro que virá, isto é, por acaso até já veio. E porque não haveria de vir? Porque as crianças têm forçosamente de se habituar à hierarquia de género, à violência conjugal e à autoridade marital? Quem deu à Psicologia a autoridade científica para estar tão segura da bondade da tríade pai-mãe-filho? A enorme violência que as famílias 'normais' afinal albergam não fará as pessoas bem-intencionadas duvidar de tais arranjos sociais?". Como terão sobrevivido as crianças criadas por pais viúvos, ou por tias e avós, sem os tais "modelos" (e que modelos...) do feminino e do masculino? Será melhor que as crianças cresçam sem adultos aos quais possam chamar seus, numa instituição?

As crianças têm direito a saber de quem descendem biologicamente, claro - trata-se de uma evidência de mero bom-senso, até do ponto de vista da saúde. Mas essa é uma questão que se deve pôr para todas as adopções e inseminações: não colhe como argumento para excluir os homossexuais. Foi-lhes finalmente concedido o direito a assumir as suas famílias - que isso incomode outras famílias, ou possa ser considerado fracturante, eis o que não entendo..

Texto publicado na edição da Única de 5 de Junho de 2010

logotipo do facebook logotipo do twitter logotipo do delicious
PESQUISAR NOTÍCIAS
NOTÍCIAS
2017
Novembro
Outubro
Setembro
Agosto
Julho
Junho
Maio
Abril
Março
Fevereiro
Janeiro
2016
Dezembro
Novembro
Outubro
Setembro
Agosto
Julho
Junho
Maio
Abril
Março
Fevereiro
Janeiro
2015
Dezembro
Novembro
Outubro
Setembro
Agosto
Julho
Junho
Maio
Abril
Março
Fevereiro
Janeiro
2014
Dezembro
Novembro
Outubro
Setembro
Agosto
Julho
Junho
Maio
Abril
Março
Fevereiro
Janeiro
2013
Dezembro
Novembro
Outubro
Setembro
Agosto
Julho
Junho
Maio
Abril
Março
Fevereiro
Janeiro
2012
Dezembro
Novembro
Outubro
Setembro
Agosto
Julho
Junho
Maio
Abril
Março
Fevereiro
Janeiro
2011
Dezembro
Novembro
Outubro
Setembro
Agosto
Julho
Junho
Maio
Abril
Março
Fevereiro
Janeiro
2010
Dezembro
Novembro
Outubro
Setembro
Agosto
Julho
Junho
Maio
Abril
Março
Fevereiro
Janeiro
2009
Novembro
Setembro
Agosto
Julho
2006
Julho
Junho
Contacto e Sugestões | Avisos Legais | English