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EUA: Ele é o poeta que Obama escolheu. É cubano e gay
2013-01-17
ricblanco

Tal como Barack Obama, Richard Blanco teve uma educação multicultural. Tal como o Presidente norte-americano, o poeta escreveu sobre o que é crescer num ambiente em que se misturam várias geografias e identidades, sobre o que é viver entre dois mundos. Obama fê-lo na autobiografia que se tornou um bestseller, A Minha Herança, Blanco em três colectâneas, a primeira das quais é City of a Hundred Fires.

No próximo dia 21, na cerimónia de tomada de posse, a segunda de Obama, os dois encontram-se. Blanco lerá a sua poesia e através dela falará da condição de cubano americano que atravessa todos os seus livros, de como a sua América também é feita dos cheiros e das cores que os pais deixaram para trás, quando ele ainda não tinha nascido.

A Administração democrata escolheu-o e o próprio Presidente participou do processo. “O seu contributo no campo da poesia e das artes já abriu caminho para as futuras gerações de escritores”, disse o chefe de Estado num comunicado, citado pelo diário britânico The Guardian. Obama sente-se “honrado” com o facto de Blanco ter aceitado o convite: “A escrita de Richard adapta-se perfeitamente a uma cerimónia de tomada de posse que vai celebrar a força do povo americano e a grande diversidade da nossa nação.”

Richard Blanco, 44 anos, nasceu em Espanha e os seus pais, exilados cubanos, levaram-no para Nova Iorque quando não tinha ainda dois meses, e daí partiram para Miami, onde foi educado. É por isso que escreve nas primeiras linhas da biografia que publica na sua página oficial na Internet que foi “feito em Cuba, montado em Espanha e exportado para os Estados Unidos”.

O poeta, que é autor de Directions to The Beach of the Deade Looking for The Golf Motel, obras elogiadas pela crítica, disse ao diário norte-americano The New York Times, no início de Janeiro, que se identifica com “a história de vida de Obama, a maneira como fala da família e, é claro, o seu background cultural”.

Blanco, que deixou de trabalhar como engenheiro civil para se dedicar em exclusivo à escrita há pouco tempo, falou ao jornal por telefone, a partir de uma pequena vila no Maine, onde vive com o companheiro. E explicou porque tem uma “ligação espiritual” a Obama: “Sinto que, de certa maneira, quando escrevo sobre a minha família, estou a escrever sobre ele.”

Richard Blanco deverá criar três poemas de propósito para a cerimónia do dia 21. O mais provável é que já o tenha feito.

A dança da poesia
Conta o NYT que o pai do poeta resolveu chamar-lhe Richard para homenagear o Presidente Nixon, que enfrentou Fidel Castro. A mãe e a avó têm também uma presença forte na sua vida e nos seus poemas. “Aqui estou eu, um cubano americano de primeira geração com esta grande honra e a sensação de uma gratidão e um amor incríveis”, disse Blanco, citado pelo jornal Los Angeles Times. “Apesar de terem já passado algumas semanas desde que fui informado [de que fora escolhido], continuo a pensar nos meus pais e nos meus avós, na grande luta que tiveram de enfrentar.”

Logo no poema America, o primeiro que publicou, faz um retrato breve da comunidade de exilados e dos seus ressentimentos, lembra o jornalista Hector Tobar no LA Times. E fá-lo descrevendo uma visita ao mercado para comprar os ingredientes para uma refeição de Acção de Graças em que a sua mãe, rejeitando o tradicional peru, insiste em cozinhar porco com banana, como faria em Cuba. O poema aborda também os sentimentos ambivalentes da família de Blanco em relação à sua “identidade americana”.

O trabalho de Richard Blanco, defendem professores, amigos e críticos ouvidos pelos jornais The Washington Poste e The Miami Herald, é sempre extremamente pessoal, quer quando fala da família, quer quando fala de si mesmo, assumindo que, sendo homossexual, foi difícil crescer no meio da comunidade cubana de Miami, sobretudo porque a discriminação começava em casa.

A avó do poeta, lembra Tobar, a mesma que cozinhava peru como quem comete um acto de traição, advertia-o muitas vezes por causa do seu comportamento. Algumas dessas advertências estão no poema Queer Theory, According to My Grandmother: “For God’s sake, never pee sitting down…/I’ve seen you. […] Don't stare at The Six-Million-Dollar Man./I’ve seen you. […] Never dance alone in your room.”

Blanco não lhe deu ouvidos e continua a fazer aquilo a que chama hoje a “dança da poesia”. Um pouco envergonhado, explicou numa leitura pública em que é que consiste, lê-se no seu site: “Um pequeno número inspirado em Michael Jackson que faço pela casa fora, em pijama, quando um dia de escrita me deixa eufórico.”

A engenharia civil foi a saída óbvia para um bom aluno a matemática a quem a família não permitiria uma carreira nas artes. A escrita criativa veio mais tarde, quando Blanco já podia tomar decisões sozinho e se inscreveu na Universidade da Florida. Foi lá que conheceu Campbell McGrath, o seu mentor. É este professor que garante ao New York Times que o talento de Blanco para números e estruturas transparece na sua poesia. “Se lhe dizíamos que precisava de ser trabalhado aqui e ali, o poema transfigurava-se por completo. Ele percebia que a revisão não implicava só um retoque, exigia voltar a imaginar o poema. Sei que isto está ligado às suas qualidades de engenheiro.”

Desde que soube que tinha sido escolhido, juntando-se a poetas como Robert Frost, Maya Angelou e Elizabeth Alexander, Blanco começou a trabalhar em três poemas. Caberá à equipa de Obama escolher um. Esta tradição relativamente recente e, para já, democrata (foram cinco os poetas convidados para a tomada de posse, o primeiro por Kennedy e os restantes por Bill Clinton e Obama) coloca este autor perante um grande desafio - o de manter a sua própria voz sem deixar de abarcar a América em toda a sua diversidade.

Os mais cínicos, lembra o New York Times, poderão argumentar que Obama escolheu um poeta latino e homossexual para agradar a muitos dos seus eleitores. Mas Blanco não está preocupado com rótulos. Quando numa entrevista em Maio do ano passado lhe perguntaram se se considerava um escritor cubano ou simplesmente um escritor, Blanco respondeu: “Sou um escritor que, por acaso é cubano, mas reservo-me o direito de escrever sobre qualquer assunto que me interesse. Estética e politicamente, não pertenço em exclusivo a grupo algum - latino, cubano, gayou ‘branco’ - mas abraço todos. Boa escrita é boa escrita. Gosto do que gosto.” E Blanco gosta da América, da avó e de Obama.

In Público. 17 janeiro 2013, por Lucinda Canelas

 
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