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Opinião: Para muitos Gays e Lésbicas o termo ‘Homossexual’ é incómodo
2014-07-17
Fred W. McDarrah/Getty Images

O declínio e queda da palavra H

Para muitos Gays e Lésbicas o termo ‘Homossexual’ é incómodo.

 

Provavelmente, para a maioria, soará inofensivo. Talvez um pouco desatualizado ou até clínico, mas suficientemente inócuo: homossexual.

Mas essa palavra de cinco sílabas nunca esteve tão carregada. Nunca foi usada tão deliberadamente e, para os ouvidos de muitos gays e lésbicas, de uma forma tão pejorativa.

“Hoje, ‘homossexual’ assemelha-se à forma como a/o nossa/o avó/avô diria “pessoa de cor”, embora não tenha sido recuperado da mesma forma", disse George Chauncey, professor de história de Yale e autor que estuda a cultura gay e lésbica.

Considere-se as seguintes frases: comunidade homossexual, ativista homossexual, casamento homossexual. Substitua-se pela palavra "gay" em qualquer um destes casos e, de repente, os termos tornam-se menos pesados, esvanecendo-se a sensação de reprovação e julgamento.

Alguns defensores dos direitos dos gays baniram o termo. A ‘Gay and Lesbian Alliance Against Defamation’, ou GLAAD, colocou "homossexual" na sua lista de termos ofensivos e, em 2006, convenceu a The Associated Press, cujo stylebook é amplamente utilizado por muitas organizações de notícias, para restringir o uso das palavras.

George P. Lakoff, professor de ciência cognitiva e linguística da Universidade da Califórnia, em Berkeley, analisou a forma como o termo é usado por aqueles que tentam retratar gays e lésbicas como depravados. O que é mais revelador acerca da substituição por gay ou lésbica são as imagens que ‘homossexual’ tende a ativar no cérebro, disse.

“Gay não inclui a palavra sexo”, disse. "Lésbica não inclui a palavra sexo. Homossexual, sim."

"O termo também contém 'homo', que é um antigo depreciativo", acrescentou. "Querem ter essa ideia presente. Querem dizer que não é sexo normal, que não é uma família normal, que vai contra Deus."

Alguns historiadores acreditam que o termo "homossexual" foi usado pela primeira vez por Karl-Maria Kertbeny, um jornalista húngaro que escreveu apaixonadamente contra as leis anti-sodomia da Alemanha no século XIX.

Mas, já no século XX, a palavra ficou ligada à classificação de transtorno mental que a Associação Americana de Psiquiatria (American Psychiatric Association) deu à atração de pessoas pelo mesmo sexo. E que não mudou até a associação se ter retratado em 1973.

William Leap, professor de antropologia da American University, Washington, que estuda a chamada "linguística lavanda", que analisa como os gays usam certas palavras e frases, disse que o caráter ofensivo da palavra deriva do seu historial médico. "Existe todo um peso clínico associado: é essa a herança atual do termo", disse, acrescentando que, por causa de seu uso de forma científica, muitas pessoas não se dão conta do impacto nos ouvidos de gays e lésbicas.

 "Não é como 'bicha', que é um termo negativo que poderia levar a uma palmada da mãe", disse ele. "Homossexual é um termo que todos conhecem.”

E no entanto, perdura.

“Agora incentiva-se o jovem que revelou que é homossexual a jogar, quando Obama disse que não deixaria o seu próprio filho jogar," disse Rush Limbaugh recentemente quando falava sobre Michael Sam, o jogador de futebol americano universitário que saiu recentemente do armário. Quando o governador Jan Brewer, do Arizona foi pressionado a vetar um projeto de lei que teria permitido aos estabelecimentos recusar o serviço a clientes gays e lésbicas, o Sr. Limbaugh referiu o trabalho do "lobby homossexual".

E no ano passado, quando Jason Collins se tornou um dos primeiros atletas profissionais masculinos a revelar que é gay, Chris Broussard, um comentador da ESPN que tinha chamado à homossexualidade "esse estilo de vida" e condenado como um pecado, anunciou que “não tinha nenhum problema com homossexuais." Mais tarde, um artigo no jornal The Christian Post relatou os seus comentários, notando que o Sr. Broussard continuou a conversa sobre o assunto com um colega gay, LZ Granderson, que o escritor classificou como "um comentador homossexual da ESPN."

No ano passado, durante a argumentação oral do caso do Supremo Tribunal Hollingsworth vs. Perry, quando o Juiz Antonin Scalia perguntou ao advogado Ted Olson, "Quando é que se tornou inconstitucional proibir os homossexuais de se casar?" pareceu a alguns dos presentes que o Juiz não conseguiu (ou não quis) usar a palavra gay.

O poder da palavra depende, é claro, de quem o usa. No final de 1970, a campanha "Save Our Children", de Anita Bryant, foi centrada na noção do "recrutamento homossexual", a crença de que gays e lésbicas tentavam atrair crianças inocentes para as suas fileiras. Gerry E. Studds, o primeiro membro abertamente gay do Congresso, lembrou que uma vez alguém o confrontou sobre se ele ainda era um "homossexual praticante (do original practicing - aprendiz)." Ao que ele respondeu: "Não. Na verdade, eu acho que até sou muito bom nisso."

Quando os alunos do Professor Leap usam o termo ‘homossexual’, o que acontece ocasionalmente, ele corrige-os. "Eu digo, 'Desculpe. Deixe-me dar-lhe um pouco de educação em vocabulário. Nesta classe, a palavra é gay ou lésbica, e é por isto'."

Gays e lésbicas adotaram várias terminologias próprias, muitas vezes palavras de código nas conversas entre si. Como gay já era um adjetivo que significava alegre, podia ser usado como uma forma de comunicar desejo pelo mesmo sexo para quem estava por dentro.

"Uma lésbica poderia dizer que conheceu uma miúda alegre (do original ‘gay gal’) na noite anterior e a sua amiga lésbica saberia exatamente o que ela queria dizer," disse o Professor Chauncey, " enquanto que o chefe direto não faria a mínima ideia do que ela estava a falar."

O movimento inicial dos direitos gays era chamado movimento homófilo porque os seus fundadores rejeitavam explicitamente a palavra homossexual; eles não queriam ser identificados como seres exclusivamente sexuais.

Em 1968, Franklin E. Kameny, pioneiro dos direitos gays, criou a frase "Gay is Good" como forma de ajudar a reduzir a conotação negativa. Até então, o termo gay tinha-se tornado o preferido entre gays e lésbicas. Mas demorou décadas até que o resto do país (EUA) reconhecesse o termo.

O jornal New York Times resistiu à palavra gay até 1987, preferindo homossexual (agora, prefere a palavra gay na maioria dos contextos). O Washington Times utilizou casamento gay entre aspas até 2008. O jornal também atualizou as normas internas nesse ano para referir que casamento gay seria preferido a "casamento homossexual".

No ano 2000 e seguintes, em que o casamento homossexual era um conceito novo, os gays eram rotineiramente descritos nos média como homossexuais. Hoje, o uso da palavra é cada vez menos frequente. Uma consulta à página Google Books mostra um acentuado declínio do uso do termo nas publicações dos últimos anos, após o auge atingido por volta de 1995.

Os estudiosos preveem que o termo, eventualmente, cairá totalmente em desuso.

"Estas alterações refletem sempre uma mudança na sensibilidade das pessoas", disse Geoffrey Nunberg, um linguista que leciona em Berkeley. "Foi o que aconteceu quando ‘Preto’ passou a ‘negro’ e ‘Afro-Americano’. É apenas uma palavra antiquada que denota uma sensibilidade geralmente neutra, mas antiquada."

Traduzido e adaptado do artigo de opinião de Jeremy W. Peters no New York Times

 
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