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Como o fascismo e a homofobia ainda nos obrigam a premiar quem faz a diferença
2019-01-13
Célio Dias
"Não dá para sermos cinzentos. Temos que ser claros." O sentido de urgência com que a deputada Isabel Moreira pronuncia estas palavras tem tudo a ver com o momento que muitas democracias atravessam. Se há ano em que os prémios Arco-Íris entregues pela ILGA fazem sentido, este é definitivamente um deles.
 
O estúdio da Time Out, em Lisboa, não foi apenas pequeno para acolher as pessoas que assistiram a esta 16ª edição dos Prémios Arco-Íris. Foi igualmente acanhado para as preocupações com os crescentes movimentos populistas pelo mundo e com as ameaças que representam a ascensão ao poder de Donald Trump, nos Estados Unidos ou, mais recentemente, de Jair Bolsonaro, no Brasil.
 
A deputada socialista Isabel Moreira olha para a ascensão de Jair Bolsonaro à presidência do Brasil como "mais um caso da História de como um fascista pode ser eleito." Isabel Moreira lembra que o novo presidente do Brasil "representa um ódio à democracia" para além de ser "uma pessoa misógina, homofóbica, com horror às minorias, aos negros."
 
A deputada defende que "deve haver um movimento internacional da defesa da democracia. Isto não tem apenas a ver com o Brasil ou com os Estados Unidos ou com os países onde a extrema-direita está a crescer. Tem a ver com uma decisão de cada um de nós."
 
Rita Rato, do PCP, alinha pelo mesmo discurso: "Não podemos branquear o fascismo." A deputada comunista lembra os "dias difíceis que a democracia vive", mas não se esquece nunca de sublinhar que, ainda assim, este "é o melhor dos regimes. Não é por a democracia estar com uma saúde debilitada que a alternativa é o fascismo", sublinha. "Não se pode dizer num dia que é preciso combater os populismos e no dia a seguir estar a naturalizar o fascismo. Esse é um exercício hipócrita", acrescenta a deputada do PCP.
 
Isabel Moreira tem mais um ponto a acrescentar à discussão: "Não temos que pedir desculpa pela democracia. Não é por haver movimentos populistas e fascistas que nós temos que pedir desculpa pela democracia e pela conquista dos direitos das minorias, que é aquilo que estamos a celebrar hoje aqui".
 
Como a política e os políticos podem fazer a diferença
 
Em 2018, Teresa Leal Coelho foi notícia por ter declarado "objeção de consciência" na forma como votou a aprovação da nova lei para a alteração do género no registo civil. Contra o seu próprio partido e ao lado do PS, BE, PCP, PEV e PAN. A decisão valeu-lhe o prémio da ILGA, este sábado. A deputada social-democrata garante que não se revê "nos projetos políticos que condicionam o exercício da liberdade e da igualdade" e que defenderá sempre "as pessoas que são discriminadas pelas suas opções."
 
Além de Teresa Leal Coelho, foram distinguidos outros dois políticos: Adolfo Mesquita Nunes, vice-presidente do CDS (ausente na cerimónia), que assumiu a sua homossexualidade, e ainda Sandra Cunha, do Bloco de Esquerda.
 
"Quando é que já não é preciso valorizar quem faz a diferença?"
 
Rita Ferro Rodrigues, que apresentou a gala pelo terceiro ano consecutivo, diz que gostava de deixar de o fazer, um dia. Era bom sinal: "Eu adoraria dizer que já não são necessários prémios como estes. Todos os anos penso: "quando é que já não é preciso valorizar quem faz a diferença, lutando pelo direito à diferença?" Infelizmente, ainda é preciso e os últimos acontecimentos mostram-no. Mas isto, hoje, é uma celebração, uma festa de todos aqueles que acreditam que, para sermos felizes, temos o direito a sermos quem somos. É tão simples".
 
Mas não é. Que o diga Rui Maria Pêgo, o outro apresentador da noite, que já sentiu a homofobia na pele. "Temos que estar atentos e vigilantes. O ódio tem espaço para crescer, tem bolhas que lhe dão espaço para que ele se torne ainda maior, mas, felizmente, há sempre pessoas que sabem aquilo que é certo. Eu acredito que há muita gente que está disponível para não ficar calada e às vezes até pagar preços altos por isso. Somos nós, no dia-a-dia, que podemos fazer a diferença, que podemos não fomentar a homofobia, não alimentar o ódio", salienta.
 
E se é certo que, em Portugal, já se fez muito nesse sentido, há ainda outra tanto a fazer. "Conseguimos que a lei nos reconheça como cidadãos e cidadãs de primeira, mas falta tudo o resto, ou seja, falta o trabalho social, para que a vida em sociedade reflita o espírito da lei. Basta pensar que é muito raro vermos manifestações de afeto, na rua, entre pessoas do mesmo sexo. Estamos a falar de um milhão de pessoas que, de cada vez que saem à rua, deixam de ser quem são", refere Nuno Pinto, presidente da ILGA.
 
Na 16ª edição dos prémios Arco-Íris, a ILGA Portugal entregou ainda troféus à RTP, à APAV, à jornalista Carolina Reis, ao atleta olímpico Célio Dias, ao casal Gabriela Sobral e Inês Herédia e a cinco partidos com assento parlamentar, nomeadamente o PS, o BE, o PCP, o PEV e o PAN. Foi igualmente premiado o documentário "Até que o Porno nos Separe", de Jorge Pelicano. Este prémio é atribuído pela AMPLOS - Associação de Mães e Pais pela Liberdade de Orientação Sexual e Identidade de Género.
 
Portugal é candidato a receber o Europride, o maior evento LGBTI da Europa que todos os anos decorre numa cidade europeia. Entre conferências, concertos e uma Marcha Pride, para celebrar o orgulho LGBTI (Lésbico, Gay, Bissexual, Transexual e Intersexual), Portugal quer receber a edição de 2022.
 
 
Sandra Xavier. In TSF, 13 de janeiro de 2019
 
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